Por Paulo Queiroz

Mas antes leia os episódios anteriores:
Ep 5: A Ilha



Vasculhamos quase toda a orla e não a encontramos. Paramos, suados e ofegando, porque corríamos quais loucos e concordamos que ou ela estava na floresta ou no mar; entretanto, se algo lhe houvesse acontecido ela gritaria. Ademais, não entraria na floresta sem mais nem menos. Mais essa.

Algo fincado num coqueiro torto luziu. Intrigado, fui ver o que era. Os meninos me seguiram. Era uma adaga com cabo de aço revestido por couro preto. Duas gárgulas entalhavam-se no pulso da adaga e cobras serpenteavam a lâmina. E ela espetava um pedaço de… Pergaminho deteriorado. Puxei a adaga e coloquei-a com cuidado na lateral cintura.

Não havia nada escrito no pergaminho.
Capítulo IV
O Som do Paraíso
“A vontade, se não quer, não cede,
é como a chama ardente,
que se eleva com mais força quanto mais se tenta abafa-la.” – Dante Alighieri

Precipitando-nos floresta adentro ouvíamos murmúrios suaves do vento cortando os troncos robustos de árvores enormes que pareciam ter séculos de idade, cujas raízes emergiam da terra por todo o perímetro.

Juntei-me ao pessoal. A Bele andava com um pouco de dificuldade, gemendo a cada pisada, apoiada nos ombros do Tiago e do Henri. Prosseguimos a esmo. Não tínhamos nenhuma noção de onde poderíamos estar naquele lugar desconhecido. A floresta adensava-se e as clareiras passaram à escassez.

As plantas ralharam como se algo tivesse corrido entre elas. Assustamos-nos. Peguei instintivamente a adaga e empunhei. Fiz sinal de silêncio e o estado de alerta aguçou meus sentidos. Três coisas correram em sentidos diferentes entre as folhas. Engoli em seco e olhei para todos os lados.

– Quem está aí?! – gritei num arroubo de coragem.

Ouvi apenas as copas frondosas das árvores farfalharem e minha pulsação no ouvido.

– Deve ter sido algum animal… – sussurrou Rafael.

Relaxamos depois de alguns minutos de tensão e de silêncio.

– Temos que prosseguir – aconselhei.

– Eu sugiro que voltemos para a orla. Não sabemos o que há dentro dessa mata. Não temos como nos defender seja lá do que for – disse Natália.
– Mas temos que comer. Temos que nos abrigar. Teremos que nos arriscar ou morreremos literalmente na praia, Nat – expirei um pouco chateado por toda aquela situação.

– Tem razão – concluiu ela.

Minhas pernas coçavam à medida que penetrávamos a flora. Os ramos cortavam-nos. Mosquitos incomodavam-nos. Usei a adaga para cortar a plantação que estava no caminho. A Isabele choramingava de dor e não poderíamos parar em meio ao cerco do bosque labiríntico.

Chegamos a uma clareira, em que algumas bananeiras carregadas de palmas de banana desordenadamente espalhavam-se. Uma bênção! Estávamos famintos; caminhamos por volta de quarenta minutos, suados, surrados e cansados. Um som de cascata não muito longe se misturava com os pios das aves, com o arvoredo dançando ao ritmo da brisa, aos variados cantos e barulhos que os insetos faziam.

Sentaram a Bele numa pedra encravada no planalto de terra e aparentou tirar uma cruz dos ombros. Dei a adaga ao Henrique para que junto com o Pedro e o Rafael fossem tirar as bananas.

– Comida e água não muito longe – disse esperançoso e em parte satisfeito.

– Deixe-me ver esse pé… – agachei-me, colocando a perna da Bele sobre as minhas.

Tirei vagarosamente o torniquete, que estava colado pelo sangue seco. Os meninos tentavam tirar as palmas das bananeiras enquanto a Lorena estava sentada sob a sombra de uma árvore contígua, encostada em seu tronco, a que estávamos: a Lorena com o Guilherme entre suas pernas; a Natália fazia uma massagem fisioterápica – sua paixão e especialidade acadêmica – na perna lesionada da Isabele. A Nick só observava junto ao Marcelo.

A ferida estava infeccionada, inchada, circundada por sangue coagulado, deixando-a arroxeada. Aparentemente, repugnante. Fiz uma cara de reprovação e olhei para Nat, perguntando-a.

– E aí, o que podemos fazer?

– Lavar e isolar novamente – falou profissionalmente -, apesar de não ser recomendado abafarmos feridas. Como é no pé… é o jeito – mordeu o lábio.

– Tem água corrente aqui por perto – lembrei. – Não é bom nos separarmos. A Giovana sumiu… e nada – a preocupação com a Gio assomada à angústia retornou. – Vamos evitar imprudências.

Os meninos trouxeram duas palmas e o pessoal foi ao seu encontro, faminto, tirando e comendo as bananas vorazmente. O Tiago pegou algumas para a Isabele. Levantei-me e pus seu pé no chão com cuidado para não magoá-lo. Por instantes apenas comemos, nos fartamos.

Depois estávamos largados sob a sombra das arvores, em silêncio, em que o turbilhão de pensamentos de cada um se engarrafavam naquele ambiente bucólico e rompiam a paz que deveria imperar pelo arvoredo ciciando, o tinir do vento cortando a mata e os indistinguíveis cantos e sons que os animais emitiam; inquietante.

Resolvi falar. Olhei para o Tiago e senti a boca ressequida. Perguntei-o se ainda havia água na botelha. Ele abriu a tampa e emborcou-a. Não havia um pingo. Isto me fez lembrar a fluência de água quase inaudível que emanava de algum lugar ali não muito longe.

– Bem, estamos sem água e certamente sei que estão com sede – fitei o pessoal. – Mas eu ouvi – pausei -, não sei se vocês também ouviram barulho de queda d’água…

Concordaram comigo.

– Façam silêncio… vamos tentar nos nortear e ver donde vem essa água – disse.

Novamente ouvia-se apenas a natureza se expressando através dos elementos, da flora e da fauna. Circundei o lugar a fim de identificar um ponto para seguirmos o caminho do néctar que sem o qual não se sobrevive mais ou menos cinco dias: água.

Andei para um lado, para o outro. O som ficava mais forte a uns dez passos largos da grande árvore em que a Isabele se acomodava com o Tiago e o Henrique. Andei mais dez passos, adentrando mais a mata e a água parecia insignificantemente mais perto. Estava convicto de que havia encontrado uma pista até a fonte. Senti uma revoada de vento estranhamente gélido quando me virei para voltar até a turma. Em seguida uma presença sobre-humana parecia me espreitar. Sabe aquela sensação enérgica de ter alguém atrás de você?  Então. Fiquei temeroso, olhando para um lado e para o outro. Por um momento vi enervado a figura espectral de uma moça de cabelos longos, castanho-avermelhados, entrelaçados sobre o ombro, dançando flutuante, com um dos braços em minha direção, convidando-me. Seus olhos grandes e intrigantes assentavam com seu sorriso labial, irresistivelmente. Ela era a menina mais linda que eu já havia visto em minha curta vida. Absorto, deu um passo para trás e tropecei numa raiz e cai sentado. Olhei para onde estava a moça, mas não havia ninguém. Levantei-me, como se tivesse me dado conta da loucura que, e sai andando a passos rápidos até dar uma corridinha e chegar aonde o pessoal estava. Engoli em seco, intimamente apavorado, arfante. Meu coração palpitava descompassado como nas vezes que quase fui atropelado.

– O que foi, Miguel? – perguntou o Pedro, levantando-se.

– Ah, na-da… – gaguejei sem graça. Mentira tola.

– Está pálido. Parece que viu fantasma… – atalhou.

Certa resposta! – pensei.

– Não, não. Acho que achei um caminho para a água – desconversei.

Pedro não estava satisfeito, mas não me inquiriu novamente.

– Eu segui por aqui – apontei para trás da Isabele, subindo no planalto enraizado, e ela olhando-me curiosa sobre os ombros – e andei vinte passos e senti uma proximidade maior do que nos outros sentidos.

– Então, vamos arriscar? Não temos muitas escolhas… – apertei os lábios, lamentando.

Encabecei a fila de jovens perdidos em algum paraíso desconhecido e vez e outra assustador. Rumamos em alerta. Afundávamos numa relva verde escura que encobria lama. Os mosquitos e o calor liquidificado em suor eram muito incômodos. Não sei se cortava o mato para abrir caminho ou se matava os sanguinários. Vai ver estes insetos inconvenientes que mais matam pessoas no mundo, mais do que os próprios humanos e demais seres, inspiraram as superstições vampirescas.

Eu podia ouvir a água corrente como ouvia minha respiração. Tão perto… meus instintos de sobrevivência apressavam meus passos; meu corpo ansiava clementemente por se deleitar com aquelas águas. Cortei duas grandes folhas e eis o paraíso, isolado, imaculado.

Continua…