Por Tiago Amorim    

A névoa espessa escondia grande parte das lanças fincadas no chão por todo o campo de batalha. Cabeças de homens mortos encontravam-se encravadas em suas pontas a céu aberto. O cheiro fétido de morte estava ficando insuportável para o único sobrevivente do lugar. Apesar de sua roupagem estar rasgada e impregnada com seu próprio sangue e também com o de seus inimigos, a lâmina sagrada da espada continuava a reluzir.
Contrapondo-se à figura do samurai ferido, estava uma criatura de pele negra – tão densa e escura quanto a noite mais assustadora – e trajando uma armadura diferente de todas as convencionais. Era um ser que possuía chifres por quase todo o contorno do corpo, sendo que os maiores delimitavam-se na cabeça. Suas ombreiras pareciam grandes portas de grosso metal do tamanho de quatro homens. O resto da composição de seu traje tinha partes metálicas e partes de esqueletos humanos. Empunhava uma espada agressivamente robusta e mortalmente afiada.
A mão gigante, protegida por uma manopla de guerra, tentou alcançar seu alvo após um longo silêncio. Apesar de jovem e devidamente hábil em várias manobras de evasão, Jack teve dificuldades de se esquivar. Não poderia se defender usando a espada contra um ataque corporal. Não enquanto Abu estivesse daquele jeito.
– Abu, filho do Eclipse Solar e Rei dos Demônios Metamorfos! Finalmente escolheu sua forma mortal para me enfrentar.
– Tolo samurai – vociferou a besta. – Derrotei o mundo com minhas outras transformações, mas você parece ser o único capaz de me derrotar em todas elas. Exceto que moldei esta daqui ao longo de todos esses anos em que você estivera perdido no tempo. Esta é minha forma perfeita, sinta-se honrado!
Abu desferiu outro golpe, desta vez com a espada forjada com seu próprio ódio. O samurai conseguiu se defender como se o monstro não pesasse nada. O demônio fumegava enlouquecidamente enquanto seus olhos vermelhos brilhavam de ira.
– Chega de fugir! – Gritou Jack, mas era mais um aviso para ele mesmo que para seu oponente.
– Então lute, Samurai!

Cada golpe que partia do Samurai era como um relâmpago. Com o passar do tempo, sua explosão de ataques lembrava uma tempestade de raios totalmente fora de controle. Tamanha era a intensidade que Abu pôde apenas resistir com sua grossa armadura. Entretanto, até mesmo o metal mais resistente não durava muito ante a katana sagrada.
O Rei Demônio também sabia lutar, havia aprimorado sua técnica durante um longo treinamento, na busca de confrontar Jack sem utilizar suas habilidades metamórficas. A monstruosa espada de Abu, apesar de ser neutralizada facilmente caso tocasse na lâmina da katana, fazia Jack sentir uma dor absurda toda vez que as investidas da besta funcionavam. Os corpos de homem e demônio estavam começando a ficar cheios de cortes e hematomas.
Ambos se feriram mortalmente durante todo o embate. Levaram horas para que a fragilidade do corpo humano de Jack pesasse perante o incansável Abu. E, por um vacilo em sua defesa, Abu agarrou seu corpo com suas garras metálicas, espremendo o corpo do homem com todas as suas forças. As duas espadas foram soltas no chão.
– Agora, vou te destruir do jeito que desejei durante todos esses anos… – sua voz, mesmo cansada, emitia uma aura nefasta que deixou seu oponente completamente sem reação.
Usando a mão livre, Abu se apossou da espada de Jack e ergueu-a para o último golpe. Apesar de paralisado, Jack abriu bem seus olhos; morreria com honra, e não como um covarde.
A ponta da lâmina parou rente ao peito de Jack.
Inúmeras tentativas de matar o samurai foram em vão. Por mais que pressionasse e estoca-se, a espada se recusara a furar a pele frágil daquele homem.
– Não entendo… – Abu estava consternado.
Aproveitando o momento, Jack usou uma técnica de luta que aprendeu com os romanos e desvencilhou-se das garras do demônio. Recuperou sua espada, puxando-a pelo cabo ao mesmo tempo em que o metal dela fazia um corte profundo na mão direita de Abu, e ensanguentando sua manopla. 
Abu continuava tentando absorver o que acontecera, enquanto o samurai já se encontrava pronto para retomar a luta.
– Tu escolheste a única arma que não pode me causar mal algum, Abu. A lâmina desta katana fora forjada por três monges que depositaram todos os seus bons pensamentos nela. A espada não pode ser usada para ferir quem faz o bem, mas pode ferir você!
O rei dos demônios metamorfos sentiu medo pela primeira vez em toda sua existência.
Só foi preciso um golpe.