Por Paulo Queiroz

Mas antes leia os episódios anteriores:

“O medo daquilo que está lá fora muitas vezes
pode ser superado pelo medo daquilo
que reside no íntimo (…).” – Wraith: the Oblivion.

Fiz um torniquete no pé esquerdo da Isa, de modo
que seu sangue estancasse. Estávamos entorpecidos com o que aconteceu há pouco,
menos o Guilherme. Nada o abalava. Estava sempre impassível. Já o Pedro que
media mais ou menos um metro e noventa centímetros, musculoso e imponente, era
o mais aterrorizado; vivia à sombra dos outros.

O
Henrique e o Pedro levaram a Isabele no colo. Se ela fosse pulando poderia se
machucar ainda mais. Aquela areia estava cheia de “esqueletos” de mariscos, que
cortaria facilmente, se tivéssemos contato.


Aquela
natureza era estranha e imprevisivelmente dinâmica. Constantemente estava em
estado conciso de metamorfose. O que eu estudei sobre Biologia e Ecologia, a
natureza tinha sim um dinamismo evolutivo e transformador, mas lento e
imperceptível. Até a mutação de uma lagarta para borboleta era preciso um ano,
para viver tão somente vinte e quatro horas. Enquanto a cor do mar oscilava nos
tons azul e verde, transparente, em segundos.

Chutei
algo pesado e quase me estatelei na areia, se não tivesse segurado meu corpo
com os braços.
 –
Droga! – Grunhi.

A
Natália me ajudou a levantar e o Marcelo, que vinha conversando com o Rafael
logo atrás, abaixou-se e pegou o objeto que havia me nocauteado.

É uma bússola – disse ele, olhando-a com curiosidade.

Deixe-me vê-la… – pedi, levantando e limpando-me. Minhas mãos estavam raladas
e a ardência do dedão se irradiou para as mãos.


Mas ela tem quatro ponteiros eufóricos, que giram sem parar em sentidos
opostos.– arqueei uma sobrancelha e olhei para os outros.
Pesava
muito, parecia ser feita de chumbo; tinha a circunferência de minhas mãos dadas
em forma de círculo. Tinha cor de cobre, assim como as iniciais dos pontos
cardeais. A rosa dos ventos tinha o formato de uma flor de lis duplicada,
ambigramática: uma para cima e outra para baixo. E era dourada, entalhada no
fundo preto.

Nossa. E isso serve para quê? Para nos confundir mais? – disse o Marcelo, um
pouco irritado. Irritava-se facilmente.

Não sei – refutei, olhando intrigado o objeto.
O
Guilherme abriu espaço na nossa aglomeração e ficou na ponta dos dedos para ver
o que era; segurou meu punho e baixou-o e pegou aquele objeto que aparentemente
era uma bússola. Seus ponteiros que estavam numa frenesi circular, pararam,
formando uma cruz sobre as iniciais enclausuradas com escrita rebuscada dos
pontos cardeais principais: N, O, L e S – Norte, Oeste, Leste e Sul.
Peguei
o objeto novamente e seus ponteiros tornaram a girar. Devolvi ao Guil e eles
pararam. Peguei-o novamente e mais uma vez rodaram. Senti algo em relevo no
fundo da bússola. A virei de costas e havia escrito com a mesma sistemática
daquela inscrição na parede externa da casa: “יה תבקש אותי, ולא תמצא אותי: ואיפה אני, אתם לא יכולים לבוא. ג’ון ז:גד.

Vejam! – apinhamo-nos numa balbúrdia. O que seria isso?
Tive
um lampejo de memória.

Você sabe, Guil? – perguntei-o. Os outros me olharam como se eu tivesse dito
algum disparate. Só que não sabiam que ele havia traduzido o que estava escrito
lá.
Ele
permaneceu calado, olhando para mim. Com certeza sabia, mas pelo visto não iria
dizer.

Sabe? – insisti.
Ele
fez que não com a cabeça. Não me dei por satisfeito. Algo me dizia que ele
sabia e por algum motivo não quis dizer.
  
Capítulo III
A Ilha


“Na Natureza
nada se cria,  nada se perde,  
tudo se
transforma.” – Antoine Lavoisier

Caminhávamos
uns ao lado dos outros pela areia fofa da orla da praia. No horizonte, o mar
encontrava o céu e despencava. De tão grande, parecia infindo. Observávamos o
lugar. A faixa de areia que orlava a ilha perdia-se de vista. Era irregular e
oscilava para cima e para baixo, para o lado e para o outro. As árvores
farfalhavam, e as palhas dos coqueiros estavam penteadas para trás. O céu à
Michelangelo havia se livrado das nuvens, nada obstante elas não patinavam
nele, em direção a algum lugar, mas extirpavam-se como fumaça.

Incrível! – apontei para o céu.

Oh! – os outros também ficaram impressionados.
O
Sol e a Lua cheia estavam em extremos opostos. A noite e o dia encontravam-se,
sem que um imperasse em detrimento doutro. Inimaginável. Eu nunca havia visto
algo parecido e tampouco os demais. O que me deixou curioso não foi esse
fenômeno propriamente dito, mas como a Lua estava cheia, sem que refletisse a
insolação. Ela estava avermelhada, como se estivesse embebido ouro em sangue. E
no centro do Sol um ponto tão escuro quanto a crina de um garanhão.

O que será isso? – perguntou-me Rafael.

Não faço a mínima ideia, Rafael. – respondi-o embasbacado, olhando o céu.
Não
existia uma fronteira entre o dia e a noite. Ambos naturalmente completavam-se.
O mar revolto ao longe contrastava o vermelho sangue da Lua resplandecente e a
luzerna do Sol com uma defasagem considerável no centro.
Admiramos
por alguns instantes e eis os questionamentos acumulando.

Estamos na Caverna do Dragão, Dragon Ball Z, nas Crônicas de Nárnia ou onde,
hein? – o Henrique que eu até então não vi exasperar-se com nada, estava
visivelmente afetado.

Calma… – tentei apaziguar os ânimos de todos, quando eu era o mais aflito,
talvez.

Como “calma”, Miguel? Como? Você sabe o que é tudo isso? Como chegamos aqui? –
abri a boca para refutar, mas fui tolhido. – Não, não sabe. Temos que procurar
um meio para sair desse lugar! – Henri retaliou-me prontamente.
 –
Ei! Vamos baixar a bola – Natália admoestou-o.

Ele está certo, Nat. Mais do que certo. Só o que sabemos é que saímos do mesmo
lugar.
Um
barulho de madeira partindo-se ribombou na floresta. Aproximamos um dos outros
– a Isabele estava manca, mas conseguia pisar na areia fofa.

Meu Deus… – a Nicole começou a chorar e a Lorena abraçava-a, também chorando.
O Pedro não chorava, todavia a qualquer momento seus olhos marejados seriam a
Fontana Di Trevi.


Está faltando alguém. – verifiquei um por um e…

Giovana! Cadê a Giovana?! – atônito, comecei a procurá-la. Os outros também,
menos a Lorena que estava com a Nick.
Continua…