Por Bruna Dorneles
 
20517
dias. 20517 dias mergulhados em escuridão e solidão. O homem acrescentou um
palitinho na parede de pedra, encarando os demais riscos e contando. Gostava de
contar. Contava até as rachaduras na parede, mas era bom. Queria dizer que
tinha um fim. Nada ali era infinito, nada daquele maldito confinamento. Nem as
pedras, nem os riscos, nem as rachaduras. O pensamento lhe agradava
imensamente. Se nada era infinito, nem seria seu sofrimento.
As
ondas lhe perturbavam, no entanto. Eram difíceis de contar, inconstantes. Ele
as ouvia bater na pedra, e por dias era difícil se lembrar que havia um fim até
mesmo para o oceano. Sua fúria lembrava a
dela
e a memória o levava a loucura, despedaçando sua mente aos poucos pela
eternidade…
Não
Tinha
um fim.
–      
1, 2, ratos. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 rachaduras… – Ele balbuciava sem parar em um sussurro fraco.
E
mais ondas.
E
ele perdia as contas.
E
as memórias voltavam.
Estava
chovendo naquela noite. Os ventos uivavam pelos céus, as janelas estremeciam, e
até mesmo as árvores se curvavam à tempestade. Ela ria. Jogava seus cabelos
ondulados pra trás como sempre e dançava pela casa sem música. Se não fosse ela
estar li com seu sorriso e espontaneidade usual, seria difícil separar a casa
de um cenário de filme de terror. O lugar parecia a muito abandonado, as
tapeçarias e cortinas vermelhas vitorianas cheiravam a poeira, e teias de
aranha cresciam nas quinas da sala. Era difícil imaginar que ali havia sido
onde ela crescera.
–      
O que ainda está
fazendo parado aí? – Ela perguntou, rindo.
      –    
Não sabia que era pra estar em outro lugar… Devo ir embora? – Disse,
embora sua mão direita se entrelaçasse com a dela.
Ela
revirou os olhos.
–      
Sim, é claro.
Tente não ser atingido por uma árvore. Daria um imenso trabalho ao jardineiro,
coitado, e temo que ele já não esteja mais em seus dias de juventude.
Ele
jogou a cabeça pra trás, rindo e puxou-a pra frente pela mão entrelaçada. Seus
olhos, muito negros encarando o azul dos dele. Era impossível saber quem
começou o beijo. Em um segundo estavam se encarando, e no outro, ela era dele.
Ela tinha gosto de vinho e veneno, viciante e mortal.
Suas
mãos se soltaram das dela, para explorar seu corpo. Sua cintura, seios, coxas…
Calor emanando de seu corpo, o convidando mais para perto, o quão perto o
quanto podia estar. Só queria senti-la por completo; cada centímetro de sua
pele macia, todo o seu ser, os corações de ambos batendo em uníssono.
Tum, tum, tum…
–      
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 batidas… 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7
rachaduras… 1, 2 ratos…
– Tornou a
contar, sua consciência voltando para a velha cela.
Com
um grito de raiva, o homem fincou suas unhas sujas e descuidadas na própria
coxa até que de lá brotassem pequenas gotas vermelhas. Lágrimas caíram de seus
olhos e já não sabia dizer se eram de dor, raiva ou tristeza. Não se importou.
Há muito que essas emoções eram indistinguíveis pra ele. Levou as mãos a
cabeça, passando os dedos por entre os cabelos que antes sedosos e bem
cortados, agora eram sujos e compridos. Era tudo culpa dela! Tudo! Queria socar
a parede, quebrar aquela prisão e se deixar afogar nas profundezas do mar do
norte.
E
as ondas quebravam lá embaixo. Debochando dele. Rindo de sua miséria. E ele não
teve forças para impedir às memórias de brotarem de novo na superfície de sua consciência.
O
salão estava cheio. Lembrava de se perguntar como um salão tão grande poderia
parecer tão impecavelmente limpo. As paredes brancas e o piso de mármore
brilhavam como gelo sob a luz do enorme candelabro de cristal.
–      
Esse terno te
favorece muito… – Uma voz sussurrou em seu ouvido, às suas costas – Não que
você precise disso, é claro.
Ele
se virou para encarar o que imediatamente acreditou ser a visão mais linda que
jamais veria. Ela sorria pra ele, num vestido cor de sangue que esvoaçava ao
seu redor, seus cabelos muito negros caindo em ondas sobre seus ombros. E ele
nunca teve tanta certeza de que estava apaixonado.
–      
Será que a
senhorita me daria a honra desta dança? – Ele estendeu o braço, sorrindo.
–      
Mas é claro, meu
bom senhor – ela deu uma risadinha e repousou a mão sobre seu braço estendido,
permitindo-se ser guiada até a pista de dança.
Os
dois deslizaram até o outro lado do salão. Ele levou a mão à sua cintura, e ela
ao seu ombro. E deslizando pelo salão ritmicamente, era impossível não se
lembrar da outra noite, e como assim como essa, os dois pareciam estar em
perfeita sincronia.
–      
Confesso que não
esperava lhe encontrar aqui – Ele foi o primeiro a falar.
–      
Confesso que
também não esperava estar aqui – ela lhe lançou o habitual sorriso de canto dos
lábios. – Mas tinha negócios importantes para tratar.
–      
Algo que possa
requerer a minha assistência?
–      
Não pelo momento…
– seus olhos lhe sorriam. Se é que era possível olhos sorrirem.
Se
apenas ele percebesse então. Se apenas visse o efeito que ela tinha sobre ele.
Se pudesse de alguma forma quebrar o efeito que seus olhos tinham sobre ele,
então talvez nada teria acontecido. Talvez ele não fosse condenado a passar a
eternidade preso.
Mas
seus olhos continuarem presos por ela, seu corpo ainda sob seu abraço, seus pés
no mesmo ritmo, seu silêncio contando os passos enquanto eles bailavam pelo
salão.
–      
1, 2, 3… 1, 2, 3… 1, 2, 3… 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7
rachaduras… 1, 2 ratos… 1, 2, 3, 4 goteiras…
Ele
tornou a repetir, as paredes de concreto sujas tomando o lugar do branco à
frente de seus olhos. Com um suspiro aliviado, continuou a contar cada detalhe,
cada imperfeição do lugar e desejou conseguir continuar a contar para sempre.
Tentou
se levantar. No começo andar de um lado para o outro ajudava, mas agora era
difícil sequer ficar de pé. A comida ali era escassa, e seu espaço limitado
para se exercitar tinha feito os músculos de suas pernas já fracas se
atrofiarem. Ainda assim o homem usou as paredes de apoio e forçou-se a ficar em
pé. Colocar um pé a frente do outro ficava mais difícil a cada dia: seus
joelhos tremiam, e ainda apoiado na parede ele não conseguiu dar dois passos
antes de cair ao chão de joelhos, os olhos grudados no chão de pedra.
–      
Precisa de ajuda?
– ela falou entre risinhos – Não costuma andar pela floresta, não é?
–      
Admito que as circunstâncias
são inteiramente novas pra mim – Ele disse, se erguendo do chão batendo nas
próprias vestes pra limpar a terra das calças. Ao contrário dela, sua expressão
era preocupada, os músculos de seu rosto trincados de tensão.
A
mulher colocou uma mão sobre seu rosto, gentilmente acariciando sua bochecha.
Seu olhar era tão doce que mesmo ali naquela situação, o fazia duvidar se ela
não era um anjo.
–      
Hey, não precisa
se preocupar – ela sorriu – Vai dar tudo certo. Vamos fazer isso juntos.
E
mais uma vez ela o hipnotizara. E ele acreditou sem nem mesmo pensar, sem
calcular. Seu coração aquecia seu peito, louco, desvairado, convicto e
resoluto. Não havia razão ou sentido que o fizesse desviar os olhos dos dela, o
que fizesse questionar suas palavras. Ele a amava com toda a fibra de seu ser,
com todo sopro de sua alma. Ele não notou o lugar onde estavam, o sangue em
suas mãos, nem baixou os olhos para o corpo sem vida que eles arrastavam pela
floresta.
Ele
nunca notou nada além dela.
O
movimento rápido de um rato correndo ao seu lado o fez retornar ao presente. Engatinhando,
ele voltou para seu canto da cela. Ali era o melhor lugar para ficar; o mais
longe o possível da pequena janela e do som das ondas. Seus dedos percorreram a
parede aonde os traços marcavam todos os 20517 dias em que ele se encontrava
ali.
–      
1, 2… -ele tentou
reiniciar uma conta, falhando a tentar achar o que contar – 1, 2… 1, 2… 1,2… –
Tentou novamente, mas sua mente já estava distraída demais, perdida demais. 
Ele
grasnou de frustração, os olhos novamente se enchendo d’água, mas ele já era
tão capaz de impedir seu passado de dançar a frente de seus olhos quanto era de
impedir as ondas de quebrarem nas pedras ou o oceano de se mover.
–      
Eles sabem… Virão
atrás de mim  a qualquer minuto – Ela
disse com um sorriso triste.
As
ondas quebravam no penhasco atrás de seus pés, seus cabelos se esvoaçando com o
vento. Ele estendeu a mão pra segurar a dela.
–      
Ninguém vem atrás
de você. Fui eu que matei ele.
Ela
levantou uma sobrancelha pra ele 
–      
Até a onde eles
sabem, essa pode ser a verdade. 
–      
Sabe… – ela
começou, sorrindo com os olhos – Você nunca deixa de me surpreender. – disse
sem, contudo, segurar sua mão.
–      
Eu não me
importo. Posso passar o resto da minha vida preso. Posso passar a minha
pós-vida preso, se preciso. Você não tem nada a temer.
Ela
o encarou em silencio e levou a mão à dele, seus dedos passeando pela sua pele,
contornando as linhas de sua palma: a linha da vida, do amor… Ela poderia ter
desenhado todas elas, e ele tinha certeza que ela o tinha feito. Mas seus dedos
não envolveram a mão dele, não se entrelaçaram com seus próprios. Ao invés
disso apenas passaram, suave, tristemente por ele uma última vez antes de
abandoná-lo para sempre.
Ele
assistiu, aterrorizado, o corpo dela despencar contra o mar violento. Ela que
era paixão, calor e fogo, foi rapidamente engolfada pelas águas como um
incêndio apagado. E ele ficou pra trás, se arrependendo amargamente de suas
últimas palavras.
Tomou
dela seus pecados, por que já eram a última coisa dela que a ele poderia
pertencer, e um tribunal o condenou à prisão perpétua que ele já sabia que lhe
caber desde o momento em que a conheceu. Suas últimas palavras para ela o
assombravam. Mais do que paredes de pedra, rachaduras ou ratos, ele estava
preso à ela e à sua loucura pra sempre. Na vida e no pós-vida, enquanto ele
contava os dias de sua eternidade.
1, 2, 3, 4, 5, 6,7,8,9,10…