Por Leandro Barcellos

E então, navegando pelo universo, Deus cansou de buscar a perfeição sozinho, criou uma legião de anjos que juntos o ajudariam buscar a perfeição. Dentro de suas ideias ele decidiu criar o mundo, transformar a divindade oculta em sublimidade natural. E então o mundo foi criado em sete dias.
Deus decidiu que o número sete seria a verdadeira perfeição, todo tipo de organização seria feito a partir de sete dias, a partir de sete horas, a partir de sete momentos. Deus definiu que o número sete seria o seu número, definiu que o mundo teria sete mares, para cada mar um sentimento natural que definiria o caráter dos humanos.
Em uma das ações dos anjos no mundo de Deus um dos Querubins se rebelou, Lúcifer traiu Deus e despejou sua mágoa nos sete mares, o antagonismo tomou conta do local, todo sentimento bom foi tomado pelo mal e Lúcifer obteve êxito.
Alguns anjos pereceram ao mal e se aliaram às ideias rebeldes, os anjos que permaneceram firmes lutaram contra a rebeldia do Querubim. Lúcifer caiu e levou os seus acompanhantes para o banimento eterno.

Esquecido no reino das sombras, banido eternamente alguém pode pensar que o senhor da morte estaria adormecido, mas ele deu nome ao sétimo mar, abrigo para a sétima chave. Quem será que foi o traidor? Acho que você sabe, haveria mais de um nome para nomeá-lo, agora ele, cujo os nomes são muitos, busca pelo único forte o bastante para sobreviver sob sua mão na terra.


Promessas e feitiços coroarão o rei;
Uma marionete por mil anos…
E então eles cantaram…

Sejam Todos bem-vindos a um conto fantástico em homenagem ao álbum Kepper of The Seven Keys, um dos melhores e mais conceituados álbuns da banda Helloween. Desfrutem.


           
Um homem caminhava solitário pelo deserto, o vento quente ardia em seu rosto, toda forma de vida já não estava mais evidente. O deserto era um pesadelo de onde aquele homem queria sair. De seus olhos o sangue jorrava, o mal havia atacado seu corpo e sua alma.


– Meus olhos, eu estou cego? – perguntou o homem para si mesmo.


            Continuou a andar até encontrar a cidade, as pessoas ao redor observavam o caminhar lento do homem que se guiava através das sombras, alguns gritavam, pareciam conhecer o tal homem.
            – Senhor Hansen! – disse uma pequena garota – Senhor Hansen, por favor, ajudem o senhor Hansen.


            O homem caiu e suas mãos abriram revelando sete chaves douradas. A menina que o ajudava pegou as chaves, mas o homem interferiu.


            – Não toque nessas relíquias! – praguejou o homem – você pode se ferir.


            Guardas da cidade perceberam a movimentação no entorno, todos aqueles que portavam armaduras com o símbolo do local foram na direção do Homem que mal conseguia se arrastar. Os guardas o ajudaram e mostraram enorme respeito.


            – Senhor Hansen – disse um dos guardas que tentou amparar o andarilho – vou levá-lo até a casa das curandeiras, elas saberão o que fazer.


            – Não – interrompeu o homem que sustentava uma de suas mãos nos olhos – preciso ir até o presídio, no calabouço da guarda.


            Os homens que o ajudavam ficaram paralisados. As faces interrogativas mostravam a insatisfação dos guardas, por outro lado, nenhum deles queria desapontar o tal homem. O respeito era mútuo.


            – Não podemos permitir que o senhor vá até o calabouço – disse um soldado mais novo.


            Os outros soldados olharam incrédulos, não imaginavam que um servo tão novato poderia direcionar sua palavra para Hansen dessa forma.


            – Você… – disse Hansen oscilando sua voz – não sabe o perigo que nos cerca, eu lhe peço um pouco de respeito e também peço para que me leve até o calabouço sem intervenções.


            A face de Hansen transparecia sinceridade e medo, não tinha como se opor aos seus pedidos. Os guardas limparam o sangue que cobria seus olhos e o carregaram até o calabouço.


            Chegando ao calabouço Hansen se abismou com a pouca quantidade de presos, havia muitas celas vazias no local, algumas sustentavam dois ou mais presos que estavam em situação de total descaso.


            – Onde está Michael? – perguntou o homem com firmeza – vocês não o tratam dessa maneira, não é verdade?


            – Não, com certeza não. – replicou um dos guardas.


            Na última cela um homem estava sentado esperando sua condenação, ignorado pela vida e judiado pelos seus semelhantes. Um guerreiro musculoso, com um vasto cabelo loiro, sua barba era grande e irregular e sua vestimenta estava em farrapos. Ele estava solitário dentro de uma cela específica, onde o metal era mais robusto, os guardas hesitaram em se aproximar.


            – Senhor Hansen – disse o homem – veio ver o espetáculo de horror que transformaram a minha vida?


            – Não Michael, trago notícias urgentes que apenas você pode saber.
 – Interessante – disse o prisioneiro menosprezando a situação.


            Hansen ordenou que os guardas saíssem, alguns saíram, outros insistentes ficaram. O velho homem mostrou seus olhos para o misterioso prisioneiro, ele vacilou, não queria ver que seu conhecido pudera estar cego.


            – Olhe para meus olhos, encare-os Michael, esse foi o resultado da minha visita às trevas.


Michael afastou-se por impulso.

 – Visitar o que!?


  O Homem repetiu:


            – Visitei às trevas Michael – continuou – Alguns homens com péssimas intenções despejaram seus respectivos ódios em missões de guerra desnecessárias, mataram por matar e Deus não acredita mais na humanidade.


            – E o que eu posso fazer? – indagou Michael sem reação – Não posso contrapor nenhum dos desejos de Deus, se ele nos odeia cabe a nós apenas lamentar.
            Hansen Fitou o prisioneiro, não acreditava que um homem como ele estava se entregando à escuridão.


            – Michael, Você é o melhor entre os guerreiros dessa cidade – admitiu o homem – não perca a fé em nosso Deus, ele não odeia a humanidade, só está um pouco aborrecido. Mas aconteceu uma coisa horrenda, que apenas a escuridão pode cultivá-la e foi esse acontecimento que me trouxe até aqui nesse calabouço.
 – O senhor me soltará?


            Hansen olhou para os guardas, esperava uma confirmação e ela veio.
 – Soltaremos se for necessário – relevou um dos guardas – mas saiba que se continuar brigando nas tabernas sua punição será muito maior.


            O lacre da cela foi rompido, com um impulso o prisioneiro puxou a cela para si, querendo arrancá-la de toda maneira, mas Hansen interveio, com magia.


            – Eu ludibriei as trevas Michael – disse Hansen tremendo e deixando a mostra uma das chaves – e entrego a ti a incumbência de carregá-las.


            Michael respeitou e assentiu sem nenhuma reação.


            – Escolha Michael, você deseja continuar nessa cela à mercê dos guardas ou partirá para o mundo em busca de salvação?


            A escolha parecia ameaçadora, a humanidade temia qualquer movimento do lado obscuro e Michael, por mais forte que ele fosse, era apenas um simples e renegado humano. Por outro lado o prisioneiro não queria decepcionar aquele velho homem quase cego que clamava por sua ajuda, dúvidas pairavam sobre sua mente.
 – Não quero me meter nesses assuntos divinos – disse Michael – não cabe a mim esse tipo de missão, carregar chaves divinas que trancarão os sete mares, nada disso me parece uma boa aventura.


            A verdade oculta criou um estalar doloroso na mente do guerreiro prisioneiro, Michael mentia para si mesmo, a verdade era clara, seu corpo suplicava por uma grande aventura.


            Os guardas ficaram estáticos, não conseguiam entender o motivo de um simples conjunto de chaves valerem mais que armas letais como as que eles portavam, a magia era encarada como um mal que assolava aquelas terras, mas Hansen era um portador de magia e o respeito por ele era enorme.


            – Vamos Michael, não hesite. Eu sei que seu espírito clama por liberdade, sua face simboliza a vontade de sair do calabouço e lutar por qualquer ideal, você é um guerreiro nato Michael, não merece esse estado.


            O músculo do prisioneiro pulsou, suas veias se contraíram, Michael não tinha saída, se ficasse dentro daquele lugar por mais tempo sua morte seria instantânea.


            – Eu aceito! – Bradou Michael – estarei livre ao final dessa jornada, tenho certeza.


            – Como pode ter tanta certeza? – perguntou um dos guardas.


            – Ou eu volto para minha liberdade em vida, ou eu fico por lá, experimentando minha doce liberdade após a morte.


            O guarda se calou, sabia que o maior inferno para um guerreiro era a prisão.
  Hansen Lançou um olhar hipnotizante para seu companheiro dentro da cela e disse:


 – Então você é o guardião das sete chaves, que trancarão os sete mares.


            Hansen caiu, seu olhar já não era lúcido, um dos guardas pegou o velho homem no colo e o colocou de pé. Hansen continuou.


            – Esconda-as dos demônios e resgate a humanidade, se caso você falhar o mundo que estamos será vendido em breve, para o trono do mal pago com o ouro de Lúcifer.
            -Vamos soltá-lo e você caminhará livre – disse um dos guardas que parecia ser o líder – escolha um de nossos servos para acompanhá-lo se você desejar.


            Michael fitou o velho, atento às suas palavras ele não ousou em se opor, sua mente era um turbilhão de dúvidas. Diferente da primeira atitude, o prisioneiro saiu da cela calmo e sereno, não queria movimentar mais um local repleto de faces duvidosas como a dele próprio – dúvidas temerosas que as trevas proporcionavam.


            Michael arrastou um dos uniformizados e o levou para fora da cela, o homem arrastado era o guarda que antes havia dito para Hansen não ir até o calabouço, era o mais novo de toda comitiva.


            – Hey, seu preso fedido, me largue! – protestou o menino – não sou seu empregado!
  O líder da guarda aconselhou seu servo mais novo a parar com as reclamações, ele teria que acatar as ordens sem protestar.


            – Vamos criança, você vai aprender muito nessa jornada – disse Michael – se não aprender vai morrer, ficará com as calças borradas pelo medo de ver demônios do seu lado.


            – De… Demônios!? – perguntou o menino arregalando seus olhos.
  Todos riram, os guardas deixaram seu membro mais jovem com Michael e voltaram para suas funções.


            Hansen se recompôs, mas não conseguia enxergar, sua visão já estava totalmente prejudicada e a cegueira era um fato que ele deveria aceitar para sua vida. O sofrimento de Hansen comovia Michael, o guerreiro cuidou do velho homem e o levou para seus aposentos fora da cidade.


            A noite chegou e o frio do deserto exprimia o sentido de solidão dos guerreiros, Hansen, Michael e o jovem guarda sentiam na pele a existência de um ambiente tão desproporcional como o deserto.

            Michael conseguiu guiá-los para sua casa, um aposento formado por madeira e couros de animais que serviam para controlar a temperatura. O interior da casa do ex-preso era bem pacata, tinha poucos móveis e sua reserva de comida era bem individual, teria que caçar para alimentar seus dois hospedes.


            – Partiremos amanhã! – ordenou o Michael – Deixaremos Hansen aqui, agora vá e pegue suas armas na cidade, vamos caçar e pegar frutas para alimentar Hansen.


            O jovem guarda parecia assustado, mas conseguiu partir. O caminho para a cidade foi ainda mais tenebroso, o deserto castigava aqueles que vagavam sem rumo sobre seu solo árido, andar por aquelas terras parecia uma provação indesejada.


            Rapidamente o menino voltou com seus equipamentos em mão, armadura completa um escuto redondo que ostentava o brasão do reino e uma espada afiada.

– Bons equipamentos! – disse Michael – quero vê-lo em batalha, será que sabe usar uma dessas armas contra hordas inteiras de demônios?

– Provavelmente não saberei – confessou o guarda – você… Quem sabe, pode me ensinar. O que acha?

  Hansen não estava alheio à conversa, enquanto Michael falava com seu novo companheiro Hansen esperava por algo útil, alguma informação estratégica sobre a futura jornada.

– Vocês precisam de magia – disse o velho andarilho – temo por suas vidas, não será fácil trancar os mares passando por hordas de demônios.


            – Nós sabemos que não – replico Michael.


            Hansen olhou para os aventureiros que lutariam contra o mal, encarou-os como se eles fossem seus próprios filhos.


 – levem isso consigo – disse o velho.

            Chamas brancas irromperam da mão de Hansen e cobriram os corpos dos guerreiros, Michael não mostrou espanto, mas o jovem guarda ficou perplexo com o que estava vendo.

            – Essa magia de defesa vai ajudar a espantar um pouco do ódio dos demônios.

            Michael e o guarda assentiram.

– Tomem cuidado com o mar do ódio e do pecado, ou todas as pessoas do mundo esquecerão quem elas foram um dia – disse Hansen.


            Os aventureiros assentiram novamente. Hansen olhou com dúvida e apontou para o menino.

  Nós ainda não sabemos o seu nome pequeno guarda, apresente-se.


 – Meu nome é Andi Deris, terceiro vencedor do torneio de espadachins de nossa cidade.

            Hansen e Michael riram e parabenizaram o jovem.


            – Prazer, sou Michael Kiske o segundo vencedor.


            – E eu sou Kai Hansen, vencedor e fundador do torneio, acho que os demônios vão ter um pouco de trabalho.


            Os três novos companheiros riram, três gerações unidas e postadas para vencer o mal, finalmente resgatando a humanidade dos demônios. Uma missão quase impossível de trancar os mares contaminados por Lúcifer com chaves mágicas e trazer a paz para o coração do mundo.