Por Paulo Queiroz
Mas antes leia os capítulos anteriores:
 
“O medo daquilo que está lá fora muitas vezes
pode ser superado pelo medo daquilo
que reside no íntimo (…).” – Wraith: the Oblivion.
Fomos em direção a uma cabana grotesca de madeira que fizeram, onde, atrás, havia fogo e meio peixe espetado num filete de ripa. Circundamos a fogueira. As nuvens não migravam. Parecia um estigma no límpido céu. O tempo não passava. Era tudo parado, salvo o mar esbarrando nas pedras ali perto.
– Às vezes o mar nos traz coisas. Ele sente as nossas necessidades, não sei – disse a Giovana.
– Trouxe-nos esta botelha cheia d’água, quando estávamos com sede – continuou Isabele, ofertando água aos presentes.
A Nicole pegou e bebeu, passando para a Natália.
– Cadê seus óculos, meninas? – indaguei a Nat e a Nick.
– Henrique? – acrescentei, olhando-o.
– Nem parece que eu usava óculos… – disse Henrique.
– Não sei e enxergo perfeitamente sem eles – retorquiu a Natália, a Nicole consentindo.
– Vocês “acordaram” – fiz aspas – ao mesmo tempo naquela casa?
– Hnm, hnm – Nick negou com a cabeça. – Eu “acordei” primeiro e não mexi um dedo.
Fiquei olhando para o teto que estava tão próximo, que eu podia sentir seu cheiro de umidade. Contudo, ele estava longe. Sei lá…
– Pois é – continuou Nat. – Vocês não ouviram nossos gritos?
Negamos.
– Então, quando abri os olhos e ouvi a respiração descompassada da Nicole, gritei, porque não sabia quem era naquela escuridão imperscrutável. E ela gritou junto. – Sorrimos. – Seria cômico, se não fosse trágico.
Ficamos em silêncio por alguns instantes. Cada um olhava para uma direção diferente. Eu tentava reconhecer o lugar, mas nunca vi algo sequer similar. Era inexorável de tão enervante. Particularmente, eu nunca viajei para ilhas paradisíacas, tais qual Fernando de Noronha, Malvinas, Barbados, Fiji, dentre outras que, para quem é abastado pode ter o privilégio de visitá-las, mas para pessoas como eu, o Google nos dá a oportunidade de viajar sem sair da escrivaninha.
Em círculo, sentados na areia, em volta da fogueira, da esquerda para a direita estavam a Isabele, o Tiago, o Henrique, o Pedro, o Rafael, o Marcelo, a Nick, a Nat, eu, a Lorena, o Guilherme e a Giovana, que atrelava o círculo, estando ela, a Isa e o Tiago de costas para a casa ilhada, donde viemos.
Enquanto conversávamos, percebi que o mar estava subindo e que, se não nos apressássemos, ficaríamos presos no dique. O azul safira escuro da água de outrora estava num tom impressionante de turquesa, findando, às margens dali, cristalina. Não era preciso ser biólogo para reconhecer que aquilo era um fenômeno.
– Pessoal – a conversação cessou. – Olhem. – indiquei a água já com mais de um metro de profundidade, atrás da Giovana.
Aquelas manchas pretas, que vi quando saí da casa, reapareceram no fundo do mar, só que mais evidentes, posto que a água estava transparente.
– Alguém viu aquelas manchas no fundo da água? – o mar já estava consumindo a orla do dique.
– Eu vi – disse o Pedro, com o consentimento dos demais. Todos viram.
– Nossa… – pausei e continuei. – Mas tiveram a sensação de vê-las mexerem? – Eu não quis soar como um louco.
– Uhum – menearam as cabeças positivamente, como tartarugas em concerto.
– Hnm… Vamos sair daqui. Vamos para a ilha, antes que fiquemos aprisionados aqui.
Levantamos-nos: uns limpavam-se, desvencilhando-se da areia; outros conversavam coisas indistintas. E o Sol continuava no mesmo lugar e as nuvens do mesmo jeito. A Terra parou? Ou reduziu sua velocidade de rotação?
Andamos pelo aterro, com pedras apinhadas de quaisquer jeitos, como mosaicos, que ia se afunilando com a aproximação da ilha.
– Você estava com o Guil, Lore?
– Não. Nem sabia que ele estava aqui. Onde estamos, hein? – Olhou para mim, apertando os olhos, por conta do Sol.
– Não sei, Lorena. E gostaria muito de saber – ela não se satisfez com a resposta e ficou assustada.
Normalmente, a Lore era desligada e eu a caçoava muito por conta disso.
– Ai! – a Isabele gemeu atrás de nós, acompanhada pelo Tiago, Rafael, Marcelo e o Pedro.
– O que foi, Bele? – perguntei, voltando em sua direção.
– Pisei em algo pontiagudo… – o sangue que jorrava de seu pé era sorvido pela areia.
– Espere. O que é isso? – Agachei-me. Os outros nos rodearam.
Era um cume agulhar de osso, em formato triangular, de uma lança. Puxei-a com dificuldade da areia, e cortei meu dedão, e não consegui tirá-la de lá. Ela estava enraizada no chão, portanto, desisti. Coloquei meu dedo ardente e ensanguentado na boca e suguei meu sangue.
O Tiago, nosso amigo em comum, deu-me sua camiseta e ele e eu junto com o Henrique aparamos a Isabele no braço e levamo-la até a beirada do dique, para que lavasse os pés. Ela imergiu seu pé cortado, fazendo careta, choramingando no braço do Tiago. Uma das manchas pretas mexeu-se.
Orbes grandes e roxos de dentro d’água fuzilaram-me. Puxei a Isabele sem pestanejar e uma criatura velozmente emergiu e pairou no ar, com o corpo preto de serpente; sua boca parecia estar deslocada, imensa, cheia de dentes afiados, desproporcionais ao seu corpo; outros dois olhos seguros em antenas; suas nadadeiras dorsal e anal eram douradas, grandes e eriçadas, como um leque, que cintilaram, junto com sua nadadeira caudal que mais parecia um guarda-chuva. Ficamos estupefatos. Era grande e horripilante. Suas guelras pareciam dois retrovisores e suas nadadeiras ventral uma asa de gavião. Sibilou e afundou n’água.
– O que foi aquilo?! – Exclamei. – Vamos sair daqui!
Continua…