Por Tiago Amorim
Leia o Capítulo I
Leia o Capítulo II
O professor parecia intrigado com alguma coisa. Ficou folheando suas anotações, sem demonstrar pressa para retomar o assunto. Os alunos, apreensivos, começaram a murmurar uns com os outros, talvez questionando o interesse do Mestre Kryuff com o resto da aula. Era um dia importante, pois iriam começar os princípios básicos do controle Elemental – a lição mais esperada de todo bimestre.
Ainda eram iniciantes daquela Cabala, estavam buscando o direito de se tornarem Magos Elementais de quinta classe – a mais baixa da hierarquia. A demora em prosseguir a aula significava que estavam perdendo um tempo precioso, que podia ser usado no aprendizado, já que era nessa parte que a turma apresentaria os primeiros indícios de habilidade e compatibilidade com seu elemento. Caso alguém falhasse em seus resultados e avanços, poderia repetir o bimestre o quanto quisesse, até aceitar sua obtusidade em relação aos conhecimentos dos elementos naturais.
Entretanto, já havia passado quase metade do horário e nenhum sinal de que aquela sala teria ensinamentos práticos. Um dos alunos rompeu o silêncio e perguntou:
– Mestre Kryuff, quando começaremos as práticas?
Kryuff era apenas um homem de idade avançada, careca e sem pelo algum no rosto, parecendo um monge. Tudo isso dentro de uma túnica carmesim de aspecto bem antigo, mas com uma expressiva riqueza de detalhes para olhos observadores. Havia runas pintadas em algumas partes da roupa e nos protetores do antebraço que tornava sua figura anciã ainda mais misteriosa. Seu semblante de idoso combinava com a atmosfera antiga que aquela sala de aula transmitia. Talvez os alunos tivessem demorado tanto para romper o silêncio por respeito, ou porque acharam que o mestre estava começando a caducar.
Depois de um suspiro longo e cansado, o professor levantou-se vagarosamente de sua cadeira e começou a distribuir olhares para todos – um mais desestimulante que o outro. Claramente, parecia uma espécie de punição.
– Acho que não tenho a mesma convicção de que as pessoas deveriam saber dominar as forças da natureza – sua voz parecia desmotivada, não aparentava estar com seu humor casual. – Muitos aprendizes saem daqui antes mesmo de completarem seu treinamento, e saem em busca de ganhar o mundo totalmente despreparados.
– Sair de nossa cabala apenas com o poder é um insulto a tudo pelo qual acreditamos e lutamos por gerações! Talvez tenha chegado o momento de ser mais rígido na seleção dos candidatos a magos de quinta classe.
– E como o senhor pretende fazer para tornar a seleção mais rígida? – perguntou outro aluno. – Estamos aqui justamente para isso; e essa era para ser a aula em que saberíamos se teríamos capacidade de continuar os estudos.
Kryuff colocou suas mãos sobre a mesa, apoiando seu peso nela e olhou para a janela. Estávamos no sexto andar do castelo, não era preciso aproximar-se do parapeito para vislumbrar a floresta afora. Uma imensidão de verde cobria aquelas terras, e até mesmo algumas aulas eram ministradas a céu aberto. Ainda com seu olhar focado fora daquele ambiente, começou a falar.
No início de nossa civilização, antes mesmo dos primeiros contatos do homem com outras raças racionais, nos agrupávamos em bandos nômades. A natureza selvagem não permitia nossa estadia no mesmo lugar por muito tempo; as primeiras cidades e até mesmo os vilarejos só vieram a se formar séculos depois da história que vou lhes contar agora.
Apesar dos humanos nômades não conhecerem o mundo da forma como conhecemos hoje, já estavam acostumados com alguns seres mais evoluídos, como uma planta bastante perigosa, que segundo eles, devoraria qualquer animal que lhe aparecesse na floresta. Era comum grupos de guerreiros se juntarem para queimar essa espécie. Questão de sobrevivência. Uma boa área – no sentido de segurança – servia àquelas tribos, mesmo que temporariamente. Não poderiam arriscar agir de outra forma – não vou e não quero que julguem esse tipo de atitude, principalmente se tratando daquela época.
Quando os humanos começaram a construir suas primeiras casas, cidades e aglomerados, não tiveram mais tantos problemas com a vida selvagem. Entretanto, se alguma daquelas plantas brotasse nas proximidades de suas terras, não se incomodariam em destruí-las. Creio que até hoje essa planta possa ser considerada uma praga, pois realmente ela poderia representar um perigo para quem se aproximasse dela descuidadamente.
– Um Mago Elemental, mesmo no nível mais baixo, deve saber dar razão às suas ações, tem de ser o mais racional que o resto da sociedade, e ainda assim ter a humildade de admitir seus erros para que possa nos guiar a um futuro harmônico.
Mestre Kryuff pegou alguns papeis e os distribuiu para todos.
– Vocês irão me entregar amanhã em minha sala um texto sobre como resolveriam uma situação com a planta da história. Do ponto de vista de um verdadeiro Mago Elemental, é claro.
No dia seguinte, apenas dois aprendizes tinham passado no teste de Kryuff. O professor destacou trechos e os leu em voz alta para que os que falharam pudessem entender o motivo de não terem conseguido.
“A história nos mostra uma visão dos homens sem entendimento da época e dos tempos atuais, que ainda temem a lenda, um senso comum. Há muitos meios para que nossa espécie conviva pacificamente com outras, até os mais selvagens. Um Mago Elemental deve buscar esses meios, mesmo que pareçam impossíveis.”
– Um bom argumento não precisa ser desesperado para ser considerado, ainda que eu tenha um ponto de vista diferente ou possivelmente contrário. Parabenizo Lyr Alamur por demonstrar com clareza o caminho que pretende seguir.
Todos estavam apreensivos; o nervosismo era visível tal que alguns já demonstravam sinais de que fracassaram. O sorriso de confiança de Lyr contrastava a singeleza que fora seu texto. Nunca irei me esquecer de quando ele se revelou ser a pessoa que é hoje. Tampouco esquecerei quando Kryuff leu o trecho da segunda redação.
            “Por que uma planta causaria tantos problemas a ponto de se tornar uma lenda demonizada por várias gerações? A ignorância começa a se tornar perigosa quando um grupo de pessoas começa a justificar seus atos com pensamentos absurdos. Um Mago Elemental deveria investigar o problema das pessoas, do contrário não deveria ocupar o cargo em que se encontra. Há muitos registros de sacrifícios humanos na antiguidade por conta de doenças aparentemente sem cura na época. O medo de que o resto da população pudesse sofrer, compele algumas civilizações a cometer crimes hediondos.”
O professor fez uma pequena pausa e foi direto para a conclusão.
            “Manipular os elementos é apenas uma das dádivas que esse profissional possui. Investigar, elucidar e evoluir são os papeis principais de quem quer levar a sociedade para um caminho de harmonia e integridade.”
– Eu não poderia querer mais nada deste texto! – Kryuff parecia bastante animado.  – Parabenizo Iri Amarann pela forma com que demonstrou o que um Mago Elemental é de verdade. Nenhuma outra redação fora tão convincente e eloquente para tratar de valores muitas vezes esquecidos pelos estudiosos de nossa ordem.
Levantou-se calmamente e se prostrando em frente à mesa, estendeu as mãos para a turma, como se segurasse algo. Uma chama bastante agitada formou-se entre as duas palmas das mãos e começou a soltar pequenos raios de flamas vibrantes numa intensidade frenética.
– O resto de vocês possivelmente não irá entender agora o significado disso. Estão vendo apenas uma chama viva e arisca quando deveriam enxergar uma ferramenta para construir o futuro. Não almejem apenas o poder, jovens, imaginem aquilo que se pode fazer de bom com ele. O poder pelo poder é corrosivo, é destrutivo, é maligno!  O poder em boas mãos é a verdadeira chave para nosso povo.
O fogo do braseiro estava se apagando pouco a pouco, ainda que fizesse alguns estalos vez ou outra. Com feições nostálgicas, o jovem coberto por várias camadas de cobertores cutucava com um graveto o que restara da fogueira, onde fizeram a última refeição. A noite nas proximidades do deserto não era tão agradável como dentro da floresta. O frio era mortal e algumas precauções com as criaturas noturnas daquela região deveriam ser tomadas. O mago estava em terras desconhecidas. Mas eram duas figuras, ambas totalmente cobertas por vestuários de proteção tanto para a temperatura quanto para possíveis combates. Contrastavam-se nas cores de suas vestes e em suas composições, porém, Bárbaro e Mago nunca estiveram tão parecidos desde o início desta jornada. 
– Devo ter exagerado na encenação – pigarreou Iri, antes de concluir. –, mas esse é o verdadeiro começo da minha história.
– Então esse tal de Lyr aprendeu junto com você? – Gâsh parecia bastante curioso com o que acabara de ouvir. Eram raros os momentos em que levava Iri a sério.
– Éramos os únicos magos da Quinta Classe até a Segunda. Sempre um tentava superar o outro e isso virou uma rivalidade nada saudável. Alguns mestres se preocuparam tanto que queriam nos expulsar uma vez. Tivemos que fazer um acordo silencioso de mudar nossas atitudes para concluir a graduação na cabala – Iri deu um riso debochado ao se lembrar daqueles tempos e continuou. – Deve ter sido a única vez que concordamos em algo, sem precisarmos dizer uma única palavra.
– Eu não entendendo direito. Se os dois homenzinhos não concluíram o treinamento, como ele pode ser uma ameaça ao reino e a cidade de Berek se você… hmmm se você é essa… figura… amistosa! Essa é a palavra: amistosa!
– Idiota… – o mago ficou um pouco ofendido, mas ignorou rapidamente. – Ele prosseguiu seu treinamento numa Ordem diferente, uma Ordem que permitia e incentivava magia negra. É por isso que a ida dele em Berek e essas hordas de criaturas desprezíveis não são mera coincidência. Eu tenho certeza de que ele está por trás disso tudo.
– E o que aconteceu com sua Ordem, afinal de contas?
– Queimada, saqueada, depredada, não necessariamente nesta sequência. Todos que estavam dentro dela naquele dia foram mortos por algo bem poderoso.
– Algo?
– Não havia vestígios de exército algum no local. Ninguém nunca achou nada além dos corpos mortos dos que estavam lá. Alguma força bem poderosa operou naquele dia e o mistério continua até hoje. A partir daí resolvi não me envolver com nada relacionado a Ordens, nem Monastérios, muito menos Sociedades Secretas. Até uns dias atrás eu estava feliz em Berek, aproveitando minha vida com tranquilidade.
– E agora você quer se envolver? Não faz sentido.
– Se tem uma coisa que não posso suportar é que aquele canalha de uma figa consiga dominar a cidade que tanto me afeiçoei! Fora que com um exército, ele vai querer muito mais que uma cidade: vai querer dominar o reino todo. Sabe o que isso significa? Dominar os territórios que eu vivo! De forma alguma vou permitir que aquele traidor possa exercer poder sobre mim.
– E o que Zarda tem a ver com os problemas além do deserto? – diferente do que poderia parecer, Gâsh aparentava mais interesse do que desconfiança.
– Orcs são extremamente expansionistas, até mesmo uma cidade nômade como a sua vai ter problemas, se em um futuro não muito distante eles resolverem atacar. Temos que aproveitar enquanto ainda não estão consolidados.
– Hum… Não sei, homenzinho, isso é tudo muito complicado pra minha cabeça.
Iri juntou suas mãos; posicionou-as como se fosse fazer uma oração; deixou um pequeno espaço vazio entre elas e começou a canalizar energia natural para formar uma onda de calor bastante perceptível para quem estivesse perto. Era um calor diferente do que podia ser sentido no deserto, era reconfortante, emanava uma energia boa. Uma pequena esfera formou-se. Inicialmente, parecia uma esfera totalmente lisa e moldada em chamas, mas gradativamente começou a desferir raios flamejantes para todos os lados.
– Acho que desse jeito você vai entender.
– A bola de fogo parece com a que descreveu na história.
– Exatamente. E o que você vê, Gâsh?
– O que quer que eu diga? A chave para derrotarmos o exército das criaturas? Eu já vi você em ação, mago. Essa é sua ferramenta de poder?
– Escute aqui, seu bárbaro do deserto, eu… – e começou a ter um breve lampejo de racionalidade. –… O jeito como Mestre Kryuff fez isso parecia fazer sentido com nossa situação atual.
– Eu quase achando que Iri não era aquele aluno que impressionou o professor de seu próprio conto.
– Claro que o que eu contei era verdade! Sou eu, claro que sou eu, foi um dos maiores momentos de minha vida! Eu apenas… – bufou inexpressivamente de desânimo e prosseguiu. – Não tenho mais aquela compreensão que tinha quando era apenas um estudante sonhador, perdi o interesse há muito…
– O homenzinho e Gãsh. A ferramenta de poder pode ser a gente, não pode? Só nós dois sabemos que o mago do relâmpago é quem está por trás de tudo isso. Você conhece ele bem, não é?
– Sim – o ânimo voltou a irradiar em seu rosto. – Se ele for capturado e interrogado devidamente, poderíamos ter toda informação necessária para confrontar as legiões, mas ainda precisaríamos do apoio de seu povo, Gâsh.
– Eu acreditei em você desde o começo da história, homenzinho – O homenzarrão bateu cordialmente, porém com firmeza sua mão no ombro de Iri. – Só precisava saber se você também estava acreditando em suas próprias palavras. 
Aquilo fora o suficiente para transformar duas pessoas totalmente diferentes em aliados. Iri devolveu o olhar confiante e não precisou dizer mais nada. Todas as ações posteriores foram feitas a fim de chegarem o mais rápido possível em Zarda, a cidade nômade. Mediante a situação, o principal obstáculo: como encontrariam um acampamento bárbaro pelo deserto?