Título: O Trono do Sol – A Magia da Alvorada
Autor: S. L. Farrell
Editora: LeYa
Páginas: 580
ISBN: 978-85-8044-448-3

Ainda não encontrei na internet uma resenha
sobre esse livro cujo começo não faça referência específica a outra aclamada série de
fantasia. Como o motivo para essa comparação é mais do que justo, esta resenha
não poderia iniciar de maneira diferente.
Desde que eu li “As Crônicas de Gelo e Fogo”,
de George R. R. Martin, dificilmente costumo gostar muito de algum livro de
fantasia. Sempre busco um nível de qualidade que grande parte da
literatura genérica que nos é apresentada não consegue atingir para que seja
considerada por mim uma história, no mínimo, boa. Ao pegar “O trono do Sol – A Magia
da Alvorada”, de S. L. Farrell, para ler, eu já esperava que a história poderia ser
boa. Quando comecei a ler, percebi que ela seria muito melhor.
A trama do livro ocorre predominantemente em
Nessântico, uma cidade imponente, governada sob poder da Kraljika Marguerite ca’Ludovici. Com base numa política pacífica ao resolver os problemas com alianças (e por que não?) casamentos, ela já governa os Domínios há quase 50 anos. Tanto tempo
que muitos dos habitantes conheceram apenas uma governante por toda a sua vida.
Marguerite é, por isso, conhecida pela cofnominação de Généra a’Pace (Criadora da Paz), porque durante o seu
longo reinado não houve nenhum conflito bélico significativo e por isso seu
governo foi tão longevo.
Enquanto
isso, o seu filho envelhecia impacientemente, à espera do momento de tomar
posse do trono e virar o Kraljiki. Outros, ainda, conspiravam contra a política pacífica da
Kraljika, que já não parecia mais ser tão próspera. E então ocorre tudo o que um
leitor pode pedir quando se trata de um épico fantástico: há magia, intrigas,
traições, alianças, debates sobre intolerância e sobre a interferência da religião nas
atitudes humanas e na forma de governar, tudo muito bem orquestrado e disposto por
Farrell.
Religião e magia são uns dos temas centrais.
A cidade e os demais domínios a ela submetidos também são regidos pelos
mandamentos da fé monoteísta concenziana. O poder político e a religião estão
tão intrincados que desobedecer a um muitas vezes implica diretamente em
desobedecer ao outro. Mesmo a Kraljika está submetida às regras da religião, e
o líder da fé, o Archigos, está, por sua vez, submetido ao poder do Estado. O uso
do poder do Deus Cénzi, por exemplo, que é chamado de Ilmodo, é restrito aos
discípulos treinados pela fé, os ténis, e mesmo a eles esse poder é limitado
pelas regras da religião, já que não pode ser utilizado para benefícios
particulares, próprios ou dos outros. Mesmo se fosse para curar a Kraljika de
algum mal…
O vocabulário particular do mundo narrado em “O
Trono do Sol” também é um destaque, o que pode ser um aspecto positivo ou negativo,
dependendo do leitor. Logo no começo da leitura, é preciso verificar com certa
frequência o que significa cada palavra do idioma falado em Nessântico em um guia rápido que vem na orelha do livro, como
Vatarh (pai) e Matarh (mãe). Se você se sentir incomodado com isso, talvez a
leitura seja um pouco enfadonha até você se acostumar com o vocabulário novo.
Porém, se você for como eu e curtir muito aprender idiomas e dialetos novos,
especialmente os de um mundo fantasioso como os Domínios, então aprender as
palavras novas vai ser um incentivo a mais para a leitura. O livro possui um
glossário no final com o significado de todas as palavras que Farrell
introduziu na história, além de vir, logo depois entre parênteses, a forma
correta de pronunciar.
Outro ponto interessante é a classificação
hierárquica nos Domínios. A segregação das pessoas em classes sociais é forçadamente
explícita e foi justamente para que isso fosse extremamente visível e presente que ela foi
criada. Se você morasse em Nessântico e tivesse uma partícula ca’ ou co’ antes
do sobrenome, enquanto eu não tivesse nem ao menos um ponto antes do meu, eu provavelmente
sentiria inveja de você por você ter dinheiro, se alimentar e se vestir melhor.
Ou ainda porque você poderia conseguir falar com a Kraljika pessoalmente e ter
algum cargo de poder em Nessântico. Mas caso aconteça algo e você fique na
miséria completa, enquanto eu passo a ser dono de um negócio próspero, você poderá perder a
sua partícula e eu poderei ganhar uma. E assim a vida segue em Nessântico. 
Certamente, o que mais cativa o leitor são os
personagens, apresentados sem o maniqueísmo já bastante enfadonho e presente em
muitas (muitas!) histórias genéricas. Em Nessântico não há heróis nem vilões. O
que existe é o interesse de cada um.  Mesmo
os personagens que perceptivelmente tenderiam ao lado mais branco possuem um
passado negro para contar. E descobrir as várias nuances de cada um deles é o
ponto chave para entender a cascata de acontecimentos de todo o livro.
A edição brasileira do livro, publicada pela
LeYa, é esteticamente muito bem feita. As páginas são lindas: amareladas e
emolduradas por um desenho que simula o desgaste das folhas, dando ao leitor a
sensação de estar lendo velhos pergaminhos sobre a história de Nessântico,
encontrados escondidos no Palácio da ilha A’Kralji. A única observação fica a
respeito da revisão, que necessita ser refeita. Encontrei em muitas páginas
palavras incompletas ou com letras a mais. Porém, não foi uma quantidade de
erros suficiente para prejudicar a leitura.
“O Trono do Sol – A Magia da Alvorada” é um
livro, repito, EXCELENTE e que merece MUITO ser lido. Não se deixe enganar achando
que o Trono do Sol é apenas uma imitação barata do Trono de Ferro. S. L.
Farrell trouxe com esse primeiro livro da trilogia uma história mais do que
inovadora e, mesmo com essa inovação, ainda mantém o essencial do que um bom
épico fantástico necessita. No momento, ainda me arrisco a dizer que é ainda
melhor que “As Crônicas de Gelo e Fogo”, porque todos os três livros já foram
lançados, então não vai ser preciso esperar cinco anos pelo próximo volume.