Por Leandro Pugliesi
 
12 de fevereiro de 1920
Chovia muito no porto, daquelas chuvas densas na qual cada gota
parece alfinetar a pele, não se sabe pela força ou pelo frio. A noite
não ajudava a visão de nenhum dos presentes, mas todos estavam
apreensivos, todos sabiam o que estava em jogo, e o mais importante, ele
sabia que tudo isso era por amor.
“Tudo preparado Tom, as caixas chegaram sem dar bode e os homens
estão a postos. Nenhum deles irá dar o cano”. Brian tem olhos pequenos e
a típica feição irlandesa tão comum entre os amigos de Tom, mas
diferente dele seu terno não tinha o corte moderno dos dias atuais. “Mas
devo dizer que os homens estão nervosos depois do que houve nos últimos
meses…” Ele não consegue terminar sua frase, olhando por trás do ombro
como se pudesse ver algo entre a chuva e escuridão além dos pontos de
luz das tochas.
“E devem ficar meu bom companheiro, e devem ficar. Hoje iremos
finalmente terminar o que começamos, hoje finalmente daremos um fim a
esse tormento e poderei finalmente descansar do lado do amor
verdadeiro.”Tom é alto, diferente de seus amigos Irlandeses , já que
possui a clássica aparência europeia e nobre. Como de costume se veste
sempre de forma impecável, e com seus profundos olhos negros sempre fita
seu relógio de bolso feito de prata com antigas inscrições.
Enquanto fala, Tom é abraçado pela única presença feminina, sua
companheira em todo esse tempo de batalhas contra o impossível. Há anos
eles investigam e perdem amigos para forças sobrenaturais e cultos
nefastos, mas hoje, finalmente, ela pode abraçá-lo sabendo que seus dias
de temor irão acabar. Ela o abraça com paixão, Tom a olha oferecendo
apenas um sorriso seco, o único que ele possui nos dias atuais.
Ao todo 12 homens, todos os que sobraram do último encontro com o
estranho culto subterrâneo, o mesmo que era responsável pelo
desaparecimento e sacrifício (como ficaram sabendo depois) de crianças
de cor. Acharam que ninguém ligaria, mas Tom se importa, ele sempre se
importa. Sua determinação para descobrir e, principalmente, resolver
todos os mistérios que fizeram esse grupo o que é hoje foi o que mais
atraiu Lisa. Isso e a eterna aura de tristeza que carregava com a morte
de sua família pelas mesmas sombras que há anos combatiam.
A chuva parecia querer impedir a obra dos homens, que com pressa
tiravam pedras antigas e caixas não tão antigas e, junto com Brian,
colocavam em posições precisas na praia de acordo com os desenhos. Tom
os observava de perto junto à Lisa, que  abraçava tanto com esperança
como também para espantar o frio com alguém que tanto lhe faz sentir
protegida.
“Vai acabar? Finalmente irá acabar bebê?” Lisa é forte, sempre foi,
mas agora está no limite. Ver as crianças esquartejadas para acordar um
mal antigo foi demais para a doce mente dela.
“Assim espero pequena, assim espero. Tudo está correto, o dia, o
lugar e, principalmente, essas pedras que o culto trouxe para acordar o
grande mal. Eles não contavam com a nossa intromissão, e para ser bem
sincero nem eu. Se tivéssemos chego um pouco mais tarde seriam eles e
não nós…e tudo, todo meu amor, estaria perdido.” Lisa então o abraça
mais forte, nunca havia encontrado um homem tão dedicado a um
sentimento. Nem parecia o homem quebrado pela perda da família que
encontrara anos antes.
Incessantemente a chuva castiga os trabalhadores, agravando a
dificuldade em trabalhar na areia da praia com pedras tão pesadas, mas
por sorte o mal tempo da uma trégua e eles conseguem arrumar as pedras
do jeito correto. Estão a pouco mais de 3 metros da água e ela já começa
a subir.
“Homens.” Tom se afasta de Lisa colocando ela dentro do circulo junto
com todos. “Finalmente depois de sacrifícios e árduas batalhas, hoje é o
nosso dia de vitória!”A voz de Tom é forte e não é abafada nem pela
chuva nem pelos gritos de viva de seus companheiros. “Enfrentamos corpos
sem vida que se recusavam a descansar, conhecemos o poder da magia
negra e até onde o homem se perdeu nesse mundo em busca de poder.” Seu
sobretudo se abre com uma rajada de vento mais forte. “Não mais eu digo!
Hoje tudo termina! Hoje finalmente seremos livres!” Todos se animam e
começam a tirar suas roupas, mostrando os corpos pintados como Tom os
ensinou. Com exceção de Lisa que fica perto dele, segurando o enjôo que
não a deixa há semanas. Ninguém ouveTom sussurrar “Tudo pelo meu amor”
As ondas parecem ficar negras e estão todos a postos. Todos sabem as
palavras antigas, todos sabem suas posições. Todos estão confiantes. E
começam.

AVEK NIMR SUNTAR. KULTHAR FERNAK JUHTYR. TUGISH OKLEIM NULAKEF.

AVEK NIMR SUNTAR. KULTHAR FERNAK JUHTYR. TUGISH OKLEIM NULAKEF.

O cântico é repetitivo e logo todos estão em transe. Lisa fica atenta
ao céu, que deve clarear e mostrar a luz da Lua para finalizar o
encantamento antigo que Tom encontrou com os cultistas, e  assim lacrar
para sempre esse mal antigo.
No entanto Lisa repara…as nuvens não se abriram.
O primeiro grito interrompe o cântico e todos param para ver o que
houve. Estão imóveis. Apenas chuva e ondas como som. Mais um grito. E
então o desespero toma conta.
Vestidos apenas com suas calças os homens correm em busca de suas
armas e, em meio ao tumulto, finalmente Lisa vê o que é o causador dos
gritos. Das águas negras do mar surge uma forma, que apenas por causa
das sobras, parece humanóide. A luz de um raio grava a imagem na mente
de Lisa. 
Algo parecido com um polvo, mas com mais tentáculos utilizados
para se locomover, e, como em um lula, dois enormes tentáculos saídos da
lateral de sua cabeça com bocas semelhantes às de lampreias. Com esses
longos pseudopodes a criatura chicoteava o ar da tempestade buscando
suas presas. Não. Não era uma… eram varias.
Em choque Lisa não conseguia se mover, se apoiava numa pedra quando
ao olhar para o lado viu um homem vindo em sua direção. Não teve tempo
de reconhecê-lo, pois a criatura o agarrou com um de seus tentáculos e
com suas mandíbulas de lampreia abocanhou o homem pelo torso, lhe
chupando a pele enquanto o arrastava pelo chão agonizando ao som de seus
ossos se partindo
Mesmo na escuridão Lisa consegue perceber alguns homens lutando.
Alguns conseguiram pegar suas armas, tanto de fogo quanto de lâminas.
Alguns tiros são disparados, mas se surtem efeito ou não ela não
percebe. Um braço ensanguentado a acerta no peito fazendo-a despertar do
terror momentâneo para, em desespero, sair correndo em disparada com o
coração quase saltando pelo pescoço.
Gritos ecoam na noite e o desespero maior de Lisa era em encontrar
Tom. Ela queria abraçá-lo, queria mostrar que não importava o que
acontecesse ela ainda o amava.  Ela parte entre homens sendo rasgados e
mutilados por criaturas das trevas enquanto outros vão sendo arrastados
pelas areias para as profundezas de um oceano negro.
Tom a encontra. Lisa aliviada não percebe a dor súbita em seu ventre.
Ao olhar para baixo percebe a mesma lâmina que Tom usou para defendê-la
dos cultistas encravada em seu ventre.
“Lamento Lisa, mas o único sangue puro de minha linhagem está em seu
ventre. Meu filho, meu filho irá servir para um propósito maior.” Tom
está sereno, seu sobretudo voa esticado pelo vento, mas seu chapéu não
sai de sua cabeça. A chuva faz parecer que ele chora, mas Lisa sabe que
não é verdade.
“Um…filho?”Ela olha ainda mais aterrorizada para a ferida e depois
para ele. Ela cerra os olhos chorando e aceita “Sim…se esse for o preço
para o fim desse mal eu aceito meu querido Tom.”
Tom, ainda olhando para ela, gira a lâmina em seu ventre. Não se
ouvem mais gritos dos homens e Lisa nota, entre devaneios de dor e
tristeza, as criaturas cercando o casal. “Você entendeu errado pequena
Lisa. Meu amor. Meu amor nunca foi por você. Mas por ele.” Tom deixa
seus olhos negros e profundos se perder em direção do mar. “Esse mundo
não me serve de nada sem minha família.
Crimes, vicissitudes, corrupção.
Se esse mundo for cair, que ao menos seja por um mal real. Um que eu
aceite. Um que eu ame.” Mais uma vez ele trava os olhos nos de Lisa, que
agora sem forças só consegue gritar em desespero pela compreensão.  Ele
gira e enfia a lamina ainda mais fundo. Nos olhos de Lisa uma mistura
de terror e desespero e logo sua luz se apaga assim como suas
esperanças.
“Sim” Tom diz enquanto o corpo de Lisa cai nas areias envolto em uma
poça de seu próprio sangue ao passo em que as criaturas se posicionam
uma em cada pilar. “Sim…finalmente, finalmente despertarei, meu amor
verdadeiro.” E sorrindo Tom começa a cantar, enquanto da escuridão do
mar, duas luzes brancas imensas surgem entre a chuva e o vento. Luzes
que mais parecem olhos de algo antigo. Antigo e Terrível.

AVEK NIMR SUNTAR. KULTHAR FERNAK JUHTYR. TUGISH OKLEIM NULAKEF.