Por Victor Lages

São
3 da manhã de 19 de fevereiro. Também estava chovendo por aí? Só espero que não
chova no dia 22 em Los Angeles. Aguardo sempre o ano inteiro para uma festa que
chamo de minha há 10 anos e uma torrente não vai fazer eu deixar de ver Neil
Patrick Harris fazer o famoso monólogo de abertura da 87ª cerimônia de entregas
dos Academy Awards (e um provável e já aguardado número musical). “Imagine O
Que É Possível” é o tema deste ano e eu realmente quero ser surpreendido, mesmo
com a costumeira tabela de apostas que apresento COMPLETA agora para vocês,
começando pelas menores categorias. Posso compartilhar uma felicidade? Este ano
consegui assistir 95% dos indicados!
Melhor documentário em curta-metragem:
Disque-crise para veteranos” é
minha primeira aposta. Traz uma visão melancólica e triste sobre os grupos de
apoio por telefonia aos veteranos de guerra que retornam depressivos. Uma
segunda via poderia ser “Joanna”, que mostra de forma belíssima, sem cair nas
lágrimas forçadas, os últimos dias de vida de uma mulher.
Melhor animação em curta-metragem:
O
palpite mais fácil e preguiçoso seria “O banquete”, que a Disney apresentou
antes de “Operação Big Hero”, mas confesso que achei bem aquém do que a
produtora faz (logo dois anos depois de entregar “O avião de papel”). Prefiro
arriscar em “The Dam Keeper”,
um trabalho bem mais sensível que retrata uma inusitada amizade entre um
porquinho especial e sofredor e uma raposa. Posso também disparar em “The
bigger Picture” pela inovação que fazer uma animação em papel marchê em escala
real de pessoas e stop-motion com pinturas em parede.
Melhor curta-metragem:
The Phone Call” não tem a melhor
atriz, mas tem a melhor narrativa dentre os indicados por contar uma desesperada
história que irá te fazer chorar sem dúvida alguma. Um homem liga para a
central de ajuda querendo se suicidar após sua esposa falecer e encontra, do
outro lado da linha, uma pequena esperança. “Aya” e “Parvaneh” também trazem
histórias de mulheres de força e persistentes, mas ainda foco em “The Phone
Call”.
Melhor documentário:
Nem
um pitada de sal de Oscar virá para o Brasil este ano. O doc dirigido pelo Wim
Wender e Juliano Salgado sobre o pai fotógrafo Sebastião Salgado tem
pouquíssimas chances perto de “Citizenfour
e “Virunga”. “Citizenfour”, que traz a trama complicada em que Edward Snowden
atualmente está, seria a aposta previsível por estar ganhando a grande maioria de
festivais. Porém, nenhum indicado irá me emocionar tanto quanto “Virunga”, que
está de graça no Netflix, e a exposição da triste situação d os parques
florestais da África.
Melhor filme estrangeiro:
Mesmo
no Oscar, que as pessoas reclamam do óbvio, esta categoria não é segura. “Ida”, da Polônia, seria um
palpite certo e com justiça. O filme funciona em sua totalidade, sem decair na
trama da freira Anna que se descobre judia. Mas “Tangerinas”, da Estônia, é
tensão e emoção grudadas ao contar sobre os recentes conflitos por terras.
“Relatos selvagens”, da Argentina, e “Leviatã”, da Rússia, podem facilmente ser
ditos no microfone no domingo. Nada me surpreenderia.
Melhor animação:
LEGOOOOOO!
Ainda me pego pensando se a Academia descartou “Uma aventura Lego” por ser
extremamente comercial ou por ter cenas com pessoas reais. Puf… Minha mente
me diz para votar em “Como treinar
seu dragão 2
” e ficar tranquilo, pois é uma bela continuação (arrisco
até dizer que é melhor que o primeiro), mas “O conto da princesa Kaguya”, do
impecável Studio Ghibli ganhou meu coração e, se quiserem repetir o feito de
2002 em que premiaram “A viagem de Chihiro”, seria uma grata surpresa.
Melhor canção original:
“Everything
is awesome”!!!!!!! Brincadeira. Será divertido assistir a performance da música
de Lego no palco, mas John Legend e Common fizeram um trabalho lindo demais com
Glory”, do filme Selma, e
merecem o Oscar. Se não eles, que seja Glen Campbell com “I’m not gonna miss
you”, já que esta é a última canção que o Alzheimer deixou o lendário músico
pop de 78 anos escrever.
Melhores efeitos visuais:
Peguem
os tomates, as tochas e os ovos, pois aqui vou contra todos e apostar no,
enfim, merecido prêmio para o trabalho símio feito em “Planetas do Macacos: O confronto”. “Interestelar” é o mais
óbvio e vou já ciente da derrota, mas algo naquele chroma key e naquela cena
final me fizeram ficar cismado demais se o Oscar é realmente justo para o
Nolan.
                                 
Melhor edição de som:
Aqui
se premiam os técnicos que inserem artificialmente os efeitos sonoros no filme
e, em ano de filme de guerra, “Sniper
americano
” pode ganhar uma vitória. Não existe uma escolha tão sábia
aqui, como teve em 2014 com “Gravidade”, mas até que o filme, deixando de lado
suas mensagens controversas, soube fazer direito este quesito.
Melhor mixagem de som:
Edição
e mixagem andam juntas quase todo ano, mas aqui temos um caso bastante
especial. Numa categoria que homenageia os responsáveis por intensificarem os
sons captados no momento de gravação da cena, com o intuito de criar maior
realismo ao espectador, a Academia pode fazer o banal e dar outro prêmio para
“Sniper americano” ou inovar no independente e homenagear o trabalho incrível,
sensacional feito na música em “Whiplash”.
Melhor trilha sonora:
Por
favor, celebrem o talento de Alexandre Desplat finalmente. O cara foi
duplamente indicado este ano por duas trilhas fantásticas (“O Grande Hotel
Budapeste” e “O jogo da imitação”). Não duvido, e até nem chiarei se Johan
Johannsson ganhar pela tocante trilha de “A teoria de tudo”, mas a graça, a
simplicidade e a elegância húngara de Desplat em “O Grande Hotel Budapeste” é muito mais merecida!
Melhor maquiagem:
O
que eu queria: “Guardiões da Galáxia” ser celebrado nesta categoria como “Star
Trek” foi em 2010. O que provavelmente acontecerá: a justiça de “O Grande Hotel Budapeste
promovida pelo barulho que sua campanha vem fazendo neste ano.
Melhor montagem:
Aqui
nos deparamos com um dos maiores dilemas do Oscar deste ano. O que vale mais:
uma montagem de cenas coerente com a narrativa que se passa durante 12 anos e,
por isso, precisa ser meticulosamente bem-feita para parecer convincente esta
passagem de tempo (“Boyhood”) OU fazer uma montagem de cenas seguindo
freneticamente a sequência musical que presenciamos num ato de tensão, suor e
sangue na bateria (“Whiplash”), como na espetacular cena final? Em qualquer
outro ano, votaria em “Whiplash”, mas o trabalho de montar uma vida inteira em
três horas sem chocar o espectador pelo lado negativo me faz torcer por “Boyhood”.
Melhor figurino:
Sou
a pessoa que menos entende de estilo ou roupas, mas o figurino de “O Grande Hotel Budapeste” é
muito fácil de reconhecer como um primor cinematográfico, um deleite que
ultrapassa meras classes sociais estabelecidas. Não se aproxima da delícia dos
doces franceses disfarçados de vestidos de “Maria Antonieta” em 2006, mas
reforça a ideia de que você veste o que você sente.
Melhor fotografia:
Emmanuel
Lubezki é o novo mestre da fotografia cinematográfica. Finalmente foi premiado
ano passado por “Gravidade” (e já merecia desde “Filhos da esperança” e o
esplendor de “A árvore da vida”) e pode ser reconhecido novamente agora, pela
forma como usou lindamente as cores e luzes em “Birdman”. A fotografia de “O Grande Hotel Budapeste” é primorosa e merece o destaque de
ser a única indicada a não ser digital, mas Lubezki também bem mais domínio da
técnica, como na delicada cortina colorida de pimentas ou o palco em azul.
Empate técnico?
Melhor direção de arte:
Não
há saída, escapatória, outra via. “O
Grande Hotel Budapeste
” tem o melhor, mais bonito, mais trabalhado cenário
deste ano e, quiçá, a melhor cenografia da década. O Wes Fucking Anderson
trouxe com o Hotel o que o Woody Allen fez com Paris: transformou um espaço em
personagem, o protagonista até, e deu a ele sentimentos, história, uma vida que
se cruza em outras vidas menores.
Melhor roteiro adaptado:
Cadê
Gillian Flynn e sua adaptação íntima de “Garota exemplar”? Uma falha feia, uma
falha rude da Academia, que resolveu cismar com o filme do David Fincher. Que
seja entregue então o Oscar a Graham Moore e seu “Jogo da imitação”, que tem um roteiro tão delicado que
acerta até na analogia do nome do filme com a vida de seu personagem.
Melhor roteiro original:
Meus
olhos me enganam e querem ver o Richard Linklater ganhar por “Boyhood”, mas até
este apaixonado admite que a história tem seus ápices nos momentos de lição de
vida e o resto é a vida comum. É cinema, é espetáculo e que algo mais encorpado
seja celebrado, como o ego em voga de “Birdman” ou as narrativas dentro das
narrativas bem-elaboradas de “O
Grande Hotel Budapeste
”.
Melhor atriz coadjuvante:
Uma
certeza: Patricia Arquette
pelos 12 anos de dedicação em “Boyhood”.
Inquestionável. Espero só que ela tenha lido recentemente notícias sobre ela,
pois seus últimos discursos são fracos e nada inspiradores. Sua melhor cena?
Mason filho indo embora e ela resume em 30 segundos e algumas lágrimas seus
sucessos e fracassos. “O que vem depois?
A p**** do meu funeral!
”.
Melhor ator coadjuvante:
Outra
certeza absoluta: J. K. FILHO DA MÃE
Simmons
por “Whiplash”.
Ele sempre vai ser o chefe do Peter Parker ou o pai da Juno, mas agora vai ser
o louco maestro Fletcher, que grita nos seus sonhos e te faz pensar se “bom
trabalho” é realmente danoso. Sem erros. Atuação simplesmente perfeita, que
chega a ser redundante comentar. Sua melhor cena? Depois de arremessar a
cadeira e pedir “carinhosamente” para Andrew contar até quatro. “Você vai
adiantar, você vai atrasar ou você vai tocar NA P**** DO MEU TEMPO?”.
Melhor atriz:
Rosamund
Pike está insana em “Garota exemplar” e merecia todo o burburinho criado desde
setembro. Mas depois que viram a Julianne
Moore
em “Para sempre Alice”,
todo o foco voltou para ela. Não é um bom filme, não é sua melhor atuação, não
é a melhor interpretação do ano, mas sabe quando a demora de consagração já
fica vergonhosa? Foi assim com o talento oculto de Sandra Bullock em 2010. Já
vem tarde o Oscar de Julianne Moore, uma das atrizes mais queridas e com um
imenso dom para o cinema. Sua melhor cena? “Cadê
meu celular? Cadê meu celular?”
Melhor ator:
Os
dilemas não acabaram e ainda tem mais. Michael Keaton e seu retorno genial
fazendo quase ele mesmo em “Birdman” ou Eddie
Redmayne
, garoto prodígio que veio não se sabe de onde para interpretar
divinamente Stephen Hakwing em “A
teoria de tudo
” (melhor do que Benedict Cumberbatch fizera em 2004 em
“A história de Stephen Hawking”, pois, como ensinou Robert Downey Jr. em
“Trovão tropical”, “nunca faça um retardado
por completo
”). Redmayne faz um trabalho de corpo inteiro, com dedicação ao
seu papel, com um corpinho totalmente retorcido, expressões de rosto triste,
mas com semblante esperançoso, ciente de sua mudança, de sua nova vida.
Especialistas apostam em Keaton, pois duvidam que ele tenha outra chance melhor
do que esta futuramente, diferente de Redmayne, bem mais jovem. Já basta o
Oscar da Julianne Moore por pena, que seja feita a justiça aqui. Redmayne,
chora de novo. Sua melhor cena? Ele, já na cadeira de voz, chorando na
despedida.
Melhor diretor:
Questão
agoniante que vai perdurar até os últimos minutos da premiação: Richard Linklater
e os riscos do inovador “Boyhood”, gravado durante 12 anos, ou Alejandro
Gonzalez Iñarritu, de “Birdman”, e sua genialidade em gravar um filme inteiro
em plano-sequência (discípulo de Alfonso Cuarón, hein?), sem cortes, sem pausa
para respirar, sem tempo para refletir sobre o que está sendo feito e quando
damos conta, nos impressionamos. Eu não sei. De verdade, não sei. Linklater,
Iñarritu, tanto faz. Ambos merecem, mas se é para desempatar um dilema destes,
que seja para Richard Linklater
e “Boyhood”. Foram 12 anos
com atores, produção, roteiro, cenas, diferente daquele momento difícil que o
Iñarritu passou e que durou bem menos. Ambos sofreram bastante para realizar
estes trabalhos gigantescos, então sei lá. Sei de mais nada.
Melhor filme:
Sei
nem de melhor filme. Não é para premiar os produtores, a produção inteira,
então fico na dúvida entre “Boyhood”, “Birdman”, “O Grande Hotel Budapeste”, “O
jogo da imitação” e “Whiplash”. Todos estes cinco ficariam lindos como FILME DO
ANO. “Boyhood” tem humanidade e alma universal. “Birdman” tem ego e inovação. “O
Grande Hotel Budapeste” tem graça quase infantil e deleite para os olhos. “O
jogo da imitação” tem narrativa concisa e precisão. “Whiplash” tem som e fúria.
Para mim, em primeiro lugar, coloco “Boyhood”,
seguido de “Whiplash” e “O Grande Hotel Budapeste” em terceiro. Mas, como eu
disse, sei lá, sei lá.
São
5 da manhã de 19 de janeiro. Já parou de chover. E, depois de escrever tanto,
cada fibra do meu coração dispara, acelera, pulsa pelo sentimento pungente de
ansiedade que todo ano me infla. No domingo, final da tarde, vou comprar os
aperitivos (quase sempre sai 50 reais de besteiras), preparar alguma bebida
para ir acompanhando e comemorando a cada gole e contabilizar pontos. 2014
acertei 20 categorias; 2013 foram só 16, mas 2012 foram 21. Que 2015 traga 24
reais de hora!