Por Rafael G. Silveira

Seu nome não importava para os dois brutamontes o
acompanhando num elevador que descia em alta velocidade, o fazendo sentir como
se estivesse indo ao centro da Terra. Trabalhava justamente com a conexão
homem-máquina e pesquisando suas consequências para a essência transferida. O
caso que foi chamado para investigar era envolto em mistério. Sabia que estava
para investigar um autômato consciente, e só.
Desde que conseguiram transferir a consciência de
indivíduos para construções autômatas completamente artificiais, a humanidade
conseguiu um salto enorme em longevidade. Claro que pouquíssimas pessoas
conseguiam autorização de mudar partes de seu corpo, ainda mais uma completa
transferência de consciência.
Geralmente quem recebia a autorização eram pessoas
importantes como diplomatas, que iam fazer alguma negociação em zonas de
conflito; pessoas que tinham trabalhos com muito risco para o corpo humano
comum, e relacionados.
E claro que os ativistas odiavam esse tipo de coisa,
afinal a junção de corpo com a essência que nos torna humanos. E se o homem
conseguiu superar as dificuldades por centenas de milhares de anos sem fazer isso,
por quê precisavam?
Não usavam mais o termo alma, pois já há muito
entenderam que uma religião não deve prevalecer outra inclusive na linguagem. E
o termo “essência” satisfazia tanto religiosos quanto não-religiosos. A máquina
em si não carregava o que chamávamos de “alma” do corpo. Ela carregava uma
cópia das sinapses cerebrais e possuía sim memórias, raciocínio, até uma certa
capacidade de aprendizado.
O método utilizado era o seguinte: A pessoa a ter
sua essência transferida permanecia em um coma induzido, enquanto sua entidade
máquina recebia uma cópia de sua mente e funcionamento. Assim ele podia ter um
corpo resistente e descartável, já que seu original bastava acordar.
O motivo do coma era que, com a missão ou serviço
concluído, suas memórias novas eram devolvidos para o corpo antigo. Ninguém
podia passar de metade de um dia com a entidade máquina, já que assim o
processo de transferência reversa pode danificar o cérebro orgânico na volta.
Enfim o elevador começou a reduzir a velocidade, e
parar. A porta abriu e os brutamontes praticamente o expulsaram para um
corredor largo, iluminado e todo branco. Foram o escoltando passando por várias
portas numeradas, quando abrem a porta 113 e o mandam entrar.
Dentro haviam mais dois brutamontes com crachás,
parecidos com os próprios, e um outro com um jaleco branco como o seu,
provavelmente outro técnico. No meio da sala, duas macas com fios saindo para o
teto, e de um lado um humano, do outro um autômato. Ambos imóveis.
– Oi, que bom que você chegou pra me ajudar. Estamos
com problemas para a transferência reversa dessa pessoa, e é de vital
importância para a área. – disse o técnico, que tinha um rosto parecido com o
de um rato, ou outro roedor. Se roedores usassem óculos.
– Eu não tive muita escolha né? Esses gentis
senhores me interromperam no meio de uma orientação de pesquisa sobre a
essência humana. – Parou a conversa por aí, percebendo o olhar estranho, e
ameaçador de todos os quatro brutamontes. Eles o orientaram a não fazer
perguntas sobre nada, nem nomes.
– Eu o chamei aqui, estou com um problema enorme na
interface desta pessoa. Eu nunca vi esse tipo antes, e a transferência não
completa. Se fosse um cano, eu diria que está entupido igual o de casa! –
tentou ser engraçado o técnico com cara de rato.
– Talvez. – respondeu sem muito papo, seguindo
direto para analisar o caso que o trouxe ali. Só conseguia pensar na sua casa,
pois estava extremamente cansado esse dia.
Analisando os gráficos da interface de
transferência, parecia tudo em ordem e tentou novamente inserir o comando para
iniciar. O sistema recusava pois havia um processo em andamento.
– Então,  –
disse o cara de rato – o sistema continua acusando este processo, mas não
consigo eliminá-lo da interface para completar a transferência.
Olhou como quem não querendo papo, e logo retomou o
serviço. Inseriu alguns comandos na interface para detectar onde estava o
processo para encerrá-lo. Poderia ser um qualquer, poderia ser algum processo
paralelo de controle de algum membro ou função do autômato, qualquer coisa.
Continuou alguns segundos quando localizou o
processo ativo, mas ficou um pouco perplexo olhando para a tela: era no centro
de processamento que cuidava da essência humana transferida para o autômato. Um
processo que ele nunca havia visto antes, e ele não poderia encerrá-lo, pois
isso acabaria com as memórias daquela pessoa.
– Não é possível sem danificar essas memórias,
gente. – falou para todos na sala, e os brutamontes se entreolharam.
– Essas memórias são de vital importância para a
nação. Precisamos dela intacta. – falou um deles, para ambos os técnicos na
interface.
– Então, – se dirigiu para o cara de rato – só tem
um jeito. Aguardar o processo terminar, e torcer para que o cérebro orgânico
aguente a quantidade de informações transferida. Essa limitação de 12horas é
justamente isso, a quantidade estimada que um ser humano aguenta de informações
inseridas em sua mente de uma vez.
– Então esperemos – falou um dos brutamontes, usando
uma conjugação surpreendente para uma pessoa daquele tamanho. Deu pra ver que
não eram só músculos.
Esperaram algum tempo, mas não foi muito longo. Viu
no monitor da interface que o processo se encerrou. Verificou no contador que
havia 14h e 37min para transferir. Com sorte seria possível.
Ambos técnicos iniciaram o processo, inseriram os
comandos, as telas mostravam gráficos e a transferência foi incrivelmente
rápida, apesar da pressão do corpo orgânico ter dado alguns picos no processo.
Após isso era só questão de retirar o sedativo e aguardar a pessoa acordar com
as memórias do autômato.
Nesse meio tempo, o autômato foi desativado.
Procedimento padrão de segurança, e seu núcleo de consciência removido e
destruído com um Pulso Eletromagnético de curtíssimo alcance.
A pessoa abriu os olhos, e precisou olhar em volta
para entender onde estava. Analisou o ambiente, as pessoas, suas mãos. Devagar
sentou-se na maca, meio cambaleante.
– Você está bem? Consegue saber quem é? – perguntou
o técnico com cara de rato.
– Sim, eu sei. – respondeu vagarosamente, mas nada
além.
– Qual o seu primeiro nome? – perguntou o técnico
que chegou depois, esquecendo da regra dos brutamontes que logo falaram:
– Sem nomes!
– Tudo bem, não precisa me falar, mas você lembra
seu nome?
– Nome… eu não tenho um. – Respondeu.
– Como não tem nome? Se lembra de algo que aconteceu
todo esse tempo? – indagou novamente.
– Sim, eu lembro. Eu lutei pra poder viver. Não
creio que sou quem esperam.
Nisso percebeu que os brutamontes colocaram a mão
dentro de seus paletós, e olhavam nervosamente para a pessoa sentada ali na maca.
– A pessoa que vocês transferiram para o corpo
autômato não existe mais, eu já estava lá e ele invadiu meu espaço. Foi só
quando vocês desativaram a essência dele que pude retomar meu lugar de direito.
Eu já sabia pelas memórias dele que o próximo passo seria usar o Pulso
Eletromagnético e acabar com qualquer sinapse no núcleo, então pela minha
sobrevivência decidi tentar…
Foi interrompido por um estouro forte. Um dos
brutamontes atirou na cabeça da pessoa na maca. O técnico com cara de rato foi
o próximo, nem teve tempo de reação para dizer nada. Deitou com um buraco na
cabeça também.
– Vocês sabiam! – foi o que deu tempo de falar antes
de ter seu próprio buraco na cabeça também.

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