Por Amanda Nascimento

Em meio a
livros de ficção, eletrônicos e lençóis amassados vivia um amor. Tão simples e
singelo, uma criatura um tanto magica. Ela não sabia que eu espiava pela minha
janela quando ela passava com os cabelos bagunçados, pijamas, meias coloridas
dançando sem ritmo uma música que nunca ouvi e que só combina com ela. Passei o
último semestre catalogando os hábitos dessa minha adorada criatura e descobri
que não tem lógica o seu pensar.
Ela vai
dormir na hora de acordar, fica na frente do computador, da tv, do celular, até
parece que sabe tudo o que esta acontecendo em cada um deles. Esfrega os olhos
muitas vezes, acho que é a falta dos óculos ou o sono, não sei ainda. Já esta
tarde quero dormir, mas a pequena não me deixa ir. Começou seu ritual de ir
dormir: desliga a tv, o computador, põe o celular para carregar, acende a luz e
começa a arrumar a bagunça na cama, dobra os lençóis, tira as garrafas d’água
de perto da cama, procura um livro coloca na cama, escolhe um novo pijama e
sai. 
Vai
demorar pouco mais de 20 minutos e ela vai está de volta, sonolenta e linda,
com os óculos na mão. Ela vai ler até adormecer e provavelmente toda coberta e
com a luz acesa. Ela não parece se importar com o ambiente tão claro e quente
assim para dormir. 
Amanhã
ela vai levantar no terceiro alarme do celular, ligar o computador, achar uma
música barulhenta e sem sentido e começar a se vestir para mais um dia em algum
lugar. Sei que ela coloca o mundo dentro de uma mochila colorida, anda sempre
de jeans e sapatilhas. Nunca sei aonde ela vai ou que horas volta, mas sei que
está em casa a noite, sempre sozinha, mas isso não parece lhe incomodar.
 Já pensei em descobrir, ir lá me apresentar,
pedir uma xícara de café, dizer que me mudei a pouco, que sou de libra, que
canto e escrevo, mas que meu ganha pão é ser arquiteto, que talvez possa ajudar
ela com a mochila ou com aquela antena de tv, que sou uma boa companhia…
Resolvi
que amanhã vou fazer parecer acidental nosso encontro no elevador e convida-la
para um café, se vai dar certo eu não sei, porém o certo é que acabo de ver a
luz acesa, ela chegou e meu coração pulou uma batida: ela está chorando. Não
sei o motivo do pranto, mas vou até a geladeira pego meio pote de sorvete,
papel e caneta e vou até o elevador. O que vou dizer?  Não sei, não sei nem se vou falar algo.
Resolvo
deixar o sorvete com um bilhete: espero que isso ajude a passar a noite. Beijos
– 312
Toco a
campainha e saio rumo às escadas, ainda não acredito que fiz isso. Volto pro
meu quarto, 10 minutos depois alguém na porta… É ela!