Por Paulo Queiroz
“… todo estado onírico se revela como uma
estrutura psíquica que tem um sentido e pode ser inserida num ponto designável
nas atividades mentais da vida de vigília.”
– Sigmund Freud

– Oi, Miguel – sorriu mostrando seus dentes
amarelados, desigualmente enfileirados.
– O que está fazendo aí? Como… – as palavras
difusas sufocavam uma a outra. Eu estava confuso demais.
– Sei lá! – disse, posicionando-se para pular na
água – novamente, ao que tudo indicava.
– Não! – ordenei-o, aflito. – É fundo, Guil! –
repreendi-o. Ele deu de ombros.
– Não é não – mergulhou, afundando como uma pedra
com toneladas de peso. Só vi as bolhas exaltadas pelas ondulações no local que
ele imergiu.
Minha aflição aumentava. Deus! Temendo que algo lhe acontecesse, minha vontade de ajudá-lo
era maior que meu medo daquelas águas desconhecidas. Joguei-me na água,
varando-a, como uma flecha indígena desferida num porco do mato. Vasculhei o
breu azulado, mas não vi nada. Abaixo dos meus pés, um negror infindável
disseminava-se. Emergi, respirando profundamente; mergulhei novamente. Não o
achava…
Entretanto, aquele pestinha insurgiu na superfície,
nadando “cachorrinho” até a borda da ilhota. Segui-o.
– Não saia daí! – bradei.
Apoie-me nas margens e num propulso ergui-me, e saí
da água.
– Guilherme! Ei! Ficou maluco, menino?! – eu estava
com o coração na mão. – Achei que tivesse lhe acontecido algo…
– Mas aqui é tão bom – disse ele.
Pareci coagido. Não seria por menos.
– Não, não é. Não entre aí novamente. É muito
fundo, não percebeu?
– E não é fundo. Eu… – interrompi-o.
– Não vai e pronto. Você veio com quem? Que lugar é
esse?
Ele olhou desconfiado para os lados e ficou calado.
Fez-se um silêncio.
– Não sei… – murmurou.
Puxei-o para junto de mim e esgueirei o lugar. Onde
estávamos dava para ver aquele cubo de concreto submergindo na areia. O céu
continuava do jeito que o vi. Já deveria ter amanhecido… ou… anoitecido. Eu
não tinha noção de tempo. Caminhei analisando cada detalhe. Os escombros da
casa estavam úmidos, todavia não choveu e a areia estava seca, coladas nos
nossos pés molhados.
– Você está usando um calção igual o meu… Tem
mais alguma coisa aí? – questionei-o. A cada segundo que se passava eu ia
perdendo o controle.
– Minha camiseta e meus sapatos estão ali – falou,
meneando a cabeça, indicando seus objetos recostados no casebre, que rangia com
o vento ininterrupto.
– Espera aí – pausei surpreso ao ver que ele estava
com roupas e sapatos idênticos aos meus -, são iguais aos meus. Isso é alguma
brincadeira?! – perguntei já exasperado. Olhei para os lados. – Podem parar se
quiserem! Droga! – Guil olhou-me impassível.
Minha raiva foi extirpada pelo torpor que enregelou
minha alma. Pedi tartamudeando ao Guilherme que vestisse a camiseta e calçasse
as botas. Estávamos molhados e o calor cedeu lugar ao frio cortante.
Era demais aquilo. O que estava acontecendo? Com o braço envolto do pescoço do Guil,
vasculhei o perímetro, a fim de encontrar um meio de voltar para a casa ilhada
sem termos que entrar naquela água novamente. Pensei que todo o mal já existia.
Estava enganado. O mar começou devagar a inundar a ilhota que estávamos.
– Temos que sair daqui… E o jeito é nadando. –
apertei os lábios, lamentando.
– Ali tem areia – Guil informou-me enquanto me
guiava.
Situei-me. Estávamos ao que tudo indicava no
noroeste do casebre, onde um banco de areia ziguezagueando e ligeiramente
imerso estendia-se até a outra margem. Verifiquei se era possível passarmos. Eu
estava alarmado, temendo a tudo e o Guilherme estranhamente imparcial e
monossilábico.
– Deixe-me ir à frente – pus-me a andar sobre a
areia.
Não era um banco de areia… Assimilava-se com uma
ponte da largura de dois passos, acima de um abismo consumido pelas águas azul
safira. O Guilherme me observava um pouco atrás. Olhei-o, dando um sorriso
torto, como quem assegurasse que estava tudo bem; só que não.
No final pisei em falso, desabando com o rosto na
encosta. Minhas pernas afundaram e rapidamente arrastei-me para terra firme.
Ofegava e se ainda não enfartei, não o faria nunca mais.
Acenei com a cabeça para o Guil, para que viesse.
– Cuidado! – velei.
Ele abriu os braços, como o francês Phillippe Petit
que, em 1974, atravessou o vão entre as Torres Gêmeas, e andou com uma
tranquilidade inquietante. Ele estava superando o lugar enquanto esquisitice.
Contornamos a área daquele cubo de concreto, que
para mim era uma casa desprovida de janelas, e agora estávamos de fato à
deriva. Como o Sol não nascia quiçá se punha, talvez eu tenha errado ao
especular as coordenadas geográficas.
Na parede oposta à porta da casa, atrás dela – da
casa -, havia uma inscrição incrustada no concreto respingado abaixo duma
camada espessa de lodo. Tentei lê-la, mas era ininteligível. Não sei se era em
outro idioma ou dialeto. Fugia ao meu intelecto. Na verdade, eu não sabia se
eram símbolos ou letras. Frustrante.
“?sohnos
me omoc saeréA ?sóv sioS !sarbmos saraC
…!sohnosir oãt Said Ed siezarteyq snegami Que
.sinevuj
sona soa em-ranrot mev, sialaxe euq
Sitbus
seõçanamE .odnum o aovén me em-es-iaV”
– Vai-se-me… em né…voa… o mundo – cochichou
Guil, fitando as inscrições.
– Como? – questionei-o involuntariamente.
–  Vai-se-me
em névoa o mundo. É o que está escrito – retorqui-me secamente.
Sancti
Deus!
Meu estômago queimava de
ansiedade. Como um pivete de dez anos sabe mais do que eu? Preferi não
perguntá-lo mais nada, porque ele estava me assustando e eu também não queria
saber. Só queria voltar para casa.
– Emana…ções subtis – continuou.
– O que é isso, Guil? – perguntei, sem muitas
opções.
– Que exa… exalais, vem tor… tornar-me aos…
juvenis – prosseguiu, vidrado na parede.
Olhei para trás, donde vinha um vigoroso e gélido
vento que eriçava meus pelos e zunia nos meus ouvidos, e meus olhos
deleitaram-se com aquela paisagem pitoresca, em tons sobre tons escuros. A
metros de onde estávamos, uma espécie de dique barrava o mar selvagem, não
impedindo que ele alagasse todo o lugar anterior a ele, uma faixa de areia.
Algumas sombras assomavam-se ao céu, partindo do dique; as nuvens aparentemente
densas em demasia num grafite carregado pendulavam no azul intocável do céu.
Elas não faziam parte dele. Parecia que o célebre pintor que pincelara aquela
paisagem estava desgostoso e tirou-lhe a beleza comum, acrescendo-lhe cores
fúnebres.
– Que ima… imagens – pausou – tra…zeis de dias
tão ris…risonhos – olhei-o de soslaio, memorizando o que ele dizia.
– Caras som…b-ras! So…is vós? Aé…re-as como
em sonhos? – finalizou, lançando-me um olhar vazio.
O Guilherme era um desconhecido. Monótono e
deslumbrado não acentuava em nada com o moleque irritante e hiperativo que eu
via em sua casa, quando ia visitar a Lorena, depois que mudei de onde morava.
A Lorena, garota baixinha, branca, com bochechas
proeminentes e enrubescidas, e eu nutrimos uma amizade de infância. Desde que
me entendo por gente, conhecemos-nos.
– Goethe! – pensei alto, estupefato.
Nunca me senti tão deslocado e perdido. E sequer
cogitara estar com o irmão de minha amiga quando isso acontecesse.
– Quem são vocês? – virei automaticamente, sobressaltado
por uma voz púbere que não condizia com um homem negro e corpulento.

Capítulo 1: A Ilha dos Antigos Mistérios – Capítulo 1