Por Tiago Gama
Durante os meus primeiros meses
no Japão, tudo parecia perfeito. Havia um certo sentimento de magia, como se
aquilo não pudesse real, algo que se deve muito em conta pelo fato de que,
quando cheguei, as cerejeiras estavam florescendo, mostrando suas icônicas
pétalas rosas e brancas por toda a cidade. Isso, aliado às inúmeras e surpreendentes
semelhanças entre o país e animes que assistia quando criança e também mais
recentemente (por exemplo, o estilo da arquitetura, os uniformes dos estudantes
que andavam para escola, o feitio dos mercados locais, entre outros) me fez me
sentir no paraíso.
No entanto, logo descobri as
dificuldades que enfrentaria. Embora a minha bolsa de estudos seja extremamente
generosa e eu nunca reclamaria do valor que me fornecem, o Japão é um dos
países com maior custo de vida de mundo (21o colocado no ranking da Numbeo) e
isso me pegou despreparado no começo, principalmente antes de receber a minha
primeira bolsa de estudos. Eu comia todo dia refeições prontas que comprava na
Conbini (loja de conveniência) local. Como o valor do iene é diferente do valor
do real e eu ainda não havia adquirido julgamento apropriado, eu não sabia se
ao pagar 500 ienes por uma refeição estava pagando muito ou não. Mas era muito.
A conveniência de não ter que cozinhar vinha com um preço e logo fiquei sem
dinheiro. Por sorte, esse período difícil me ensinou o valor do iene e como
encontrar alternativas mais baratas para sobreviver, o que tem me ajudado até
hoje a manter meu orçamento.
Não que ocasionalmente eu não me
permita gastar um pouco mais, principalmente em restaurantes. A culinária
japonesa não se restringe somente a sushi e frutos do mar, embora esses sejam
realmente deliciosos no país. Curry, ramen, yakiniku e shabu shabu são algumas
das minhas refeições favoritas por aqui. Esses dois últimos são geralmente em
rodízios onde você, respectivamente, grelha e cozinha a pŕopria carne.
A linguagem sempre foi e ainda é
um desafio a ser superado diariamente. Eu estudei um pouco de japonês antes de
me mudar e tenho um bom vocabulário, mas isso não é o suficiente para me
comunicar. Escolas, principalmente no Brasil (pelo menos até onde sei), ensinam
quase que exclusivamente o japonês formal, o que é extremamente útil em certos
ambientes, mas insuficiente para o cotidiano. Entre amigos e em situação
informais, o japonês quase que se torna uma outra linguagem, uma cuja gramática
e formas verbais eu desconhecia (e ainda desconheço). Ainda mais agora que tive
que desistir das aulas de japonês para me dedicar mais ao mestrado, meu uso de
japonês se limita a, ao invés de entender a frase inteira, tentar adivinhar o
significado através das palavras que consigo compreender e responder da forma
mais simples possível (o que ainda ocorre de forma lenta).
Essa barreira linguística é muito
comum entre estrangeiros e criou uma certa aversão entre a população japonesa,
que no geral não é muito fã de utilizar o inglês. A maioria deles aprendeu a
língua inglesa na escola, mas nunca praticou o suficiente para se sentir
confortável usando-a. Exatamente por isso, e porque a maioria dos estrangeiros
infelizmente não sabe japonês, eles evitam interagir com pessoas que não são
daqui. Não é incomum que o assento do seu lado no ônibus ou no trem seja o
último a ser ocupado; pessoas ocasionalmente preferem até ficar de pé. Não que
o povo japonês não seja gentil e prestativo, longe disso. Atendentes de lojas e
restaurantes vão dar o máximo de si para ajudá-lo e mesmo na rua não é difícil
encontrar alguém que o ajude a achar o caminho certo.
Falando em trem, o sistema
ferroviário japonês é extremamente conveniente. É possível usar o trem para
viajar para quase qualquer canto do país. Isso sem falar dos trem-bala que,
apesar de serem caros (custam quase que o mesmo do que viajar de avião e às
vezes até mais) são fáceis de usar e te levam de uma ponta do Japão à outra.
Infelizmente, essa facilidade de
viajar dentro do país tem em contrapartida os horários de trabalho japoneses.
Menos aparente no meu caso, que sou estudante, mas evidente na vida de vários
amigos, hora extra é algo inerente da cultura japonesa. O seu emprego pode ser
formalmente das 9 às 5, mas o seu chefe espera que você cumpra horas extras
além desse horário. Isso significa que a maioria dos trabalhadores japoneses
chega antes do começo e vai embora depois do fim do seu turno. E, embora essas
horas extras sejam pagas, não é raro que as empresas coloquem limites a
quantidade de horas extras remuneradas (limite inferior e superior: conheço
empresas que só começam a pagar as horas extras depois que o funcionários já
trabalhou 16 horas no mês fora do seu turno) e ainda exigem que o empregado
trabalhe além desses limites (algo que eu não concordo). Outro exagero é o fato
de que, embora a lei conceda aos trabalhadores um dia de folga por mês no
mínimo, chefes geralmente pressionam seus subordinados a abrir mão desse
direito. Infelizmente, isso tudo é visto pela maioria como parte da cultura
japonesa; há um certo conformismo quanto a isso.
Outro aspecto negativo da cultura
japonesa, mas um que felizmente já tem melhorado, é o machismo. Mulheres são
vistas como inferiores em diversos setores. Isso é muito aparente na política;
só neste ano, já houveram duas ocasiões onde uma senadora foi insultada durante
um de seus discursos no senado por ser mulher. Outro exemplo são os clubes de
esporte da universidade, que muitas vezes aceitam mulheres para esperam que
elas sejam managers, ou seja, que cuidem das reservas e dos equipamentos, mas
sem praticar efetivamente o esporte. Isso, porém, tem mudado bastante,
inclusive com leis que punem o assédio moral e sexual nesses casos.
Mas que fique bem claro que,
apesar desses aspectos negativos, eu ainda estou tendo uma experiência incrível
aqui. Profissionalmente, onde estou trabalhando com um dos melhores professores
e em umas das melhores universidades da minha área, e socialmente. Praticar
esportes com meus colegas de laboratório, participar das reuniões dos clubes de
esporte, viajar pelo país durante minhas curtas férias têm me feito muito
feliz.