Por Levi Kaique Ferreira
Era fim de tarde, e eu estava
animada.
Animado porque veria meus irmãos,
todos juntos, e aquilo era algo que acontecia somente uma vez ao ano. Geralmente
em Janeiro, quando o Senhor nosso pai nos dava férias e os dias da semana não
importavam muito para as pessoas. Todos os dias eram férias, independente de
ser Segunda ou Sábado, férias são férias, e então podíamos descansar um pouco.
O ponto de encontro era sempre no
mesmo lugar, meu irmão mais velho, o Sábado, tinha um chalé charmoso no pico de
uma colina escocesa, bem pertinho da Arthur’s Seat. A vista de lá é incrível e
ninguém nos incomodaria durante o descanso.
Naquele dia eu havia preparado
alguns marshmellows e, no caminho até o Chalé, recolhi alguns galhos para a
fogueira.
Quando cheguei, Sábado estava
sentada em uma cadeira velha de balanço, na porta do chalé observando o céu e
fumando seu cachimbo de ouro que ganhou da Domingo no ano anterior.  
– Segunda-Feira, você chegou
cedo, como sempre, como tens passado? – Sabado me abraçou e me sentei ao seu
lado para aguardarmos juntos os demais.
– Vou muito bem irmão e você?
Antes dos demais chegarem
conversamos um pouco sobre o ano que se passou, compartilhamos algumas
histórias engraçadas.
Aos poucos nossos irmãos foram
chegando. A última a chegar, como sempre, foi o Sexta-Feira.
Conversamos bastante antes de
acendermos a fogueira e começarmos a comer. Sexta-Feira tinha contos de terror
interessantes naquele ano, todos aconteciam no dia 13, ela adorava aquele dia.  
Cantamos 3 ou 4 músicas alegres e
então houve um desentendimento entre meus irmãos do meio. Terça e Quarta
estavam brigados desde o último encontro, eu não sabia bem o porquê do
desentendimento, mas o clima estava tenso desde a primeira troca de olhares
deles naquele dia. Tenso a ponto de iniciar um bate boca.
– Poupe-me, você é cansativo,
chato e não tem utilidade nenhuma, é o mais inútil entre todos nós, Terça.
– Ainda procuro utilidade para
você Quarta, fica bem no meio da semana, todos reclamam de você e pedem logo
para que chegue a Sexta.
– Ei!! – Interveio o Sexta – Me
mantenham fora dessa briguinha de vocês.
– Parem de medir utilidade e
preferência entre vocês, todos nós somos necessários igualmente. – Pediu a
Sábado, calmo.
– Disse o Sábado, o mais querido.
– O tom sarcástico do Quinta-Feira não o agradou e a discussão se estendeu.   
Fiquei observando-os discutirem.
Pareciam crianças mimadas brigando pela atenção do papai. Duelavam com palavras,
Quinta-feira era a mais afiada, suas palavras eram como chicote, ou melhor,
eram como alcool que fazia aumentar ainda mais o fogo.
Eu não estava agüentando mais,
estava tão feliz por poder revê-los, ver aquela cena era muito. Tive um ano um
tanto complicado, na realidade todos os meus anos são complicados, embora eu
seja a mais nova, tenho um encargo muito pesado como Segunda-Feira. Esses
encontros anuais nas férias renovavam minhas energias para continuar, eu não
queria que uma discussão boba estragasse tudo…Somos irmãos…
Eu explodi.
– CALEM-SE!
Todos me olharam. Fiquei quieto
por um tempo. Tempo o suficiente para que eles me ignorarem e retomarem a
discussão. Então, voltei a falar:
– Vocês não entendem nada… Somos
todos irmãos, fazemos parte de um ciclo perfeito…IGUALMENTE perfeito –
Frisei.
Quinta sentou-se em um galho um
pouco afastado e olhou para baixo, parecia envergonhado. Eu não pretendia parar
por ali, estava disposto a por um fim naquela discussão.
– Eu sou a Segunda-Feira, a mais
odiada entre todos e estou aqui, feliz, sorridente. As pessoas vivem me
ofendendo, dizendo que eu não deveria existir… Eles acordam de mau humor e
despejam ofensas todas as manhãs…Mal sabem elas o quão importante eu sou. Sou
A SEGUNDA-FEIRA. Sou quem trás a realidade de volta, coloca os pés de quem voa
no fim de semana no chão. Eu mostro o mundo como ele é, sou o inicio das
necessidades, sou necessária para que exista Terça, Quarta, Quinta e todos os
outros dias… A vida não é apenas festa, a vida é trabalho, lutas e você
precisa buscar seus sonhos, precisa conquistá-los. Como acha vai fazer isso
gastando seu tempo com coisas fúteis? Domingo, eu sei que no seu turno as pessoas
já reclamam da minha chegada, mas isso não me abate… Eu sou necessária, não
fico feliz por ser o que eles querem e sim por ser o  que eles precisam, então parem de brigar.  Até mesmo eu vejo beleza no meu trabalho…

Por um instante achei que fosse chorar, mas segurei
firme as pontas e vi que quem chorou foi o Sexta. Ele me abraçou e fechei meus
olhos. Quando reabri todos estavam pensativos. Terça desculpou-se com o Quinta
e também a abraçou, éramos apenas um naquele momento, éramos um ciclo com
inicio, meio e fim.  Somos os dias da
semana e prometemos nunca mais brigar ou subestimar um ao outro, mas sou
realista, sei que essa promessa não irá durar por muito tempo.