Por Paulo Queiroz
O ambiente, as personagens e as criaturas são passageiras: surgem e somem como fumaça. As bestas, inimagináveis. De onde vêm as personagens, elas não voltam. A “casa” é como o útero de nossas mães. O destino é incerto. Os acontecimentos, exultantes. Na Ilha a união nem sempre faz a força. A sobrevivência depende da inteligência e do egoísmo. Nela, as personagens são transfiguradas em “homens primitivos”. Os instintos, se não domados, podem impeli-las a fazer e a se submeter a coisas familiares só aos povos que vivem nas entranhas da Natureza.
Distopia, suspense matizado por um terror leve, interrogações e aventura é o que esta série oferece aos leitores. A Ilha dos Antigos Mistérios, que está originalmente em formato de livro, o qual foi retalhado no estilo série especialmente para o blog, gostaria de frisar, foi idealizada num momento de epifania, entre uns tragos e outro, em uma madrugada envolta pelos mistérios que nos espreitam, cujos filósofos e pesquisadores da mente se debruçam a desvendar; nestes mistérios, não especificando um dos quais em que a estória se assenta, o livro foi inspirado. Ainda, não sou um escritor de carreira, como os amigos. Apenas escrevo aquilo que minha mente hiperativa e mirabolante cogita, sempre trilhada por uma soundtrack.
Por fim, espero que gostem. Estou aberto a elogios, críticas – principalmente – e sugestões de qualquer natureza.
Você pode ser uma das personagens. Mas aviso aos incautos: sua vida na Ilha estará a um passo do abismo.
Aproveitem!
Capítulo I
A Casa Ilhada
“… todo estado onírico se revela como uma
estrutura psíquica que tem um sentido e pode ser inserida num ponto designável
nas atividades mentais da vida de vigília.”
– Sigmund Freud
Não sei se acordei ou se dormi e sonhei com aquele lugar estranho, úmido. Eu estava arfando, como se eu tivesse corrido uns 100 metros rasos em uma maratona. Uma casa? Mas estava inacabada. Infiltrações serpenteavam os esqueletos de concreto do teto, que gotejava, e as paredes salpicadas de cimento. Levantei-me. O chão era lamacento e a casa parecia estar sendo engolida vagarosamente pelo piso há muito, lentamente. Era claustrofóbico, não havia janelas. Meus olhos ainda acostumavam-se à escuridão, mas era possível vislumbrar o ambiente esquisito. O ar rarefeito não cooperava para aquietar meus pulmões. Eu estava todo molhado e sujo. Bati na roupa para me despojar da sujeira barrenta. Relanceei à procura de alguma saída. De súbito, ouvi um marulho abafado e tive a atenção furtada por algo mais escuro. Caminhei em sua direção. Fechos de alguma luminescência penetravam-lhe os buracos, destacando-o no meio da parede frontal. Uma porta. Tateei-a e encontrei uma maçaneta; instintivamente girei-a e ela soltou-se da madeira podre e encoberta por lodo. Joguei-a para o lado. Ela afundou no chão instável. Entreabri esforçadamente a porta, muito pesada, e senti uma lufada de vento litorâneo. A três passos da soleira havia… água? E a terra da fronte da casa era fina e seca. E aquele lamaçal? Nada a ver.
Uma praia…? Indaguei-me em pensamentos, agora mais confusos. Pus um dos pés no que parecia areia praiana, para me certificar que não era perigoso. A porta fechou-se fortemente atrás de mim, assustando-me. Repetidamente, ouvia um barulho de algo pesado caindo em água.
Um pouco ao sudeste da casa, a alguns metros de água azul anil, numa ilhota, amontoavam-se os restos dum casebre rústico e destelhado, edificado de qualquer jeito com tábuas assimétricas. Andei até o fim de terra e fitei o fundo daquelas águas inquietas e coloridas, num efeito degrade de azul safira escuro para um verde esmeralda perolado. Tive a impressão de que as manchas escuras no fundo se moviam consoante o agito da água que ricocheteava na margem. Eu certamente não ousaria mergulhar ali.
A faixa de areia que ladeava a casa era demasiada pequena. Era como se tivesse aflorado no meio do mar, sobre um
precipício; mas não fazia sentido uma construção de alvenaria erguida no meio do nada. Por quem? Como? Por quê?
Um arroubo de medo consumiu-me quando me sobressaltei com a água, ao tocá-la. Muito fresca e naquele calor
tórrido parecia uma sereia encantando-me para me levar à morte por afogamento, haja vista sua profundidade inalcançável.
Afastei-me da margem e me sentei na areia. Nesse momento foi que percebi: usava uma camiseta vermelha, bermuda bege escuro, e coturnos de escalar. Contudo, eu nunca usaria roupas assim, porque não fazia meu estilo careta, tampouco estaria numa praia.
Ergui os olhos para o céu. Ele estava tão incomum quanto o lugar que encimava, numa dicotomia: a alvorada
ainda estava espreguiçando-se no horizonte, clareando-o; o Sol estava prestes a reinar – ou a descansar. Um misto de noite e dia, numa aquarela azul escuro à laranja-amarelado pincelavam-no.
Aquele barulho de algo caindo abruptamente em água continuava. Reergui-me e caminhei no sentido sudeste,
onde, um pouco distante, estava o casebre. Ao que me parecia, de lá que vinha aquele barulho que ouvi desde que surgi dentro da intrigante caixa de concreto, fechada hermeticamente por restos duma porta de aparência frágil, porém pesada.
Como chego ali?
– Olá?! – chamei num tom altissonante a fim de sobrepor o marulho.
Ninguém respondeu. Entrementes, passos pisoteando água aproximavam-se. Decerto havia alguém ali e eu não teria
para onde correr. Estagnei-me petrificado. Meu coração saltou descompassado no pescoço. Aquilo me apavorou tanto quanto as circunstâncias desconhecidas em que eu estava.
Senti aquela sensação magnética, que atiça todos os nossos sentidos, de alguém se aproximando. De repente apareceu uma pessoa. Meus instintos estavam certos. O medo seguido do susto deu lugar ao
espanto.
– Guil?! – exclamei. Era o Guilherme, o irmão mais novo da Lorena.
O que diabos ele estava fazendo ali?