Nunca me imaginei planejando
orçamento de passagens, hostels e outros gastos para realizar uma viagem.
Elaborando logísticas do tipo “qual transporte público me faria gastar menos
dinheiro e tempo”, “qual rota devo seguir para visitar tais pontos turísticos”;
ou até mesmo “quantas vezes vou poder repetir esse par de meias até que ele apodreça”.
Com um mês morando na França sem saber francês, eu partia para a Grécia, com
uma mochila nas costas e um inglês muito ruim na ponta da língua. Ia rever meus
dois melhores amigos depois de 7 meses distantes.
Quando você é inexperiente nesse
tipo de coisa, duas reações são as mais previsíveis: ou você viaja temendo tudo
o que poderá acontecer, ou você não sente medo de nada. E dentro desta última
opção, lá estava eu. Uma hora da madrugada de Paris, escondida do frio dentro
de uma estação de trem, com mochila, barraca e colchão de ar em mãos. Íamos acampar
em uma ilha paradisíaca e eu estava muito empolgada – mas isso é uma outra
história.
Um esclarecimento de antemão: meu
trem partia às 6 da manhã, então pra que ir atrás de um lugar pra dormir se eu
poderia virar a noite em qualquer parte? Estações de trem não são como
aeroportos, onde você fica por lá, toda a madrugada, debruçado sobre sua
bagagem de maneira nada ergonômica? A resposta é NÃO, meus caros. Estações
fecham e eu aprendi da pior maneira.
Enquanto eu me distraía com o
celular, um guarda se aproximou de mim com um daqueles “cachorros-cavalos”
(aqueles cães tão grandes que te cheiram de cima) e falou rispidamente que eles
estavam fechando. Entendi porque ele me pegava pelo braço e indicava uma porta
pela qual várias pessoas saíam. Eu estava confusa, ainda tentando assimilar que
agora eu iria para a rua com aquelas bugigangas e lá ficaria durante toda a
madrugada.
De repente, um cara se aproxima e
diz que vai me ajudar. Me convida para um café, pega a minha barraca na mão e
dispara. Eu não sabia o que fazer, dentro da minha cabeça, eu havia claramente
lhe dito “não”. Fui até um policial. Não conseguia explicar nada na língua, mas
pelos gestos e pela tranquila expressão nos rostos dos seguranças, percebi que
o estranho dizia que estava tudo sob controle, que ele me conhecia ou algo do
tipo. Foram 5 minutos angustiantes, em que eu seguia o cara até a saída da
estação, balbuciando qualquer coisa menos francês, tentando tomar minha barraca
de volta e pensando num jeito de correr caso eu a conseguisse, pois sabe-se lá
o que aquela criatura aleatória faria comigo.
Precisei apelar ao guardinha com
o seu cachorro-cavalo. E entre tantos soluços e “je ne parle pas bien le
français”, ele repreendeu o estranho que me seguia e me conseguiu um quartinho
de hotel ao lado da estação, onde eu ficaria em segurança e poderia sair em
cima do horário do trem. Tomei banho, tranquilizei meus amigos e, ao sentar na
cama, olhei pela janela. Era uma vista sem graça, dava no miolo do quarteirão,
todos os quintais e suas roupas estendidas, suas escadas de ferro, seus
telhados de chaminés. No breu de 2 da manhã, quase nada se via. Mas eu sabia e
os sons das ambulâncias lá fora não me deixavam negligenciar aquilo. Eu estava,
pela primeira vez, em Paris.
Mal sabia eu era que, um mês
depois, na companhia daquela mochila, teria vivido o suficiente para tornar a
história do maluco da estação uma bobagem! Escolhi falar desse episódio porque
ele representa o início de um novo ciclo na minha vida. “Mochilar” me ensinou
coisas que nem a experiência de morar sozinha havia me ensinado.
Esse texto é um enorme abraço à
oportunidade que tive de sair pra pisar o mundo com meus próprios pés. Um abraço
não só a todos os mochileiros, mas também àqueles que abrem as portas de suas
casas, abrem as suas cabeças para outras culturas, tentam aprender uma receita
tipicamente estrangeira ou falar uma outra língua. Para os que doam seus sofás
e para aqueles que neles descansam. Para os que preferem, por mais duro que
seja, caminhar a andar de ônibus, mergulhar a sentar na beira. Um abraço, por
fim, às mochilas invisíveis e incrivelmente únicas que montamos ao longo de
jornadas como essas, porque toda essa bagagem cultural que levamos para casa no
fim é, acima de tudo, um pouco da mochila do outro.
Amina Andrade (esquerda) e sua amiga em frente ao Palácio de Buckingham, Londres.