Por Fernando Perosa
Jane.
Doce
Jane. Menina meiga, delicada e amorosa. Cheia de predicados, Jane era uma
criança feliz, mas também cercada de muitos medos. Certo dia, um acontecimento
corriqueiro mudou para sempre o rumo de sua vida…
Lara,
sua mãe, dedicada e exemplar dona de casa, limpava a sala de estar da família e,
em um momento de descuido, quebrou um espelho. Na verdade, o referido espelho
não era um simples modelo, mas sim um já amaldiçoado, porém adormecido. Com a
morte do espelho, vieram também os famosos e temidos sete anos de azar.
Passado
o ocorrido, nada aconteceu, até que, semanas mais tarde, em uma movimentada
avenida da cidade, Lara morre atropelada por um caminhão, enquanto passeia com
a filha nas lojas de brinquedos. A menina sobreviveu, com alguns leves e
pequenos machucados, todavia, o medo e a falta da mãe nunca foram superados.
Jane sente culpa pelas mortes que a rodeiam, principalmente a de sua mãe,
naquele dia sete de julho. Para ela, a pior combinação numérica: dia sete do
mês sete. Odeia igualmente este dia como todos os demais que a amaldiçoam.
Após
o choque pelo falecimento e a despedida da mãe, Jane seguiu sua vida com o pai
e o irmão mais novo. Sobretudo, o número sete tentava novamente arruinar a vida
dela.
Enquanto
brincava com o irmão no jardim de casa, Jane o perdeu de vista e ouviu disparo.
Quando o encontrou, perto da cerca, notou que ele fora baleado. Após breves
lapsos, o menino faleceu em seus braços, aos sete anos. Jane entrou em casa
chorando, exaurida, carregando o pequeno corpo desfalecido em seus braços e
recebeu o abraço do pai, que, em vão, tentou acalmá-la. A culpa e o
ressentimento assolaram nova e avidamente a menina, que por tudo se sente
responsável.
Por
fim, decidem começar vida nova em outra cidade, pois acreditam que a casa está
amaldiçoada. Ledo engano. Na nova cidade, a menina frequenta a escola
normalmente, mas nada aprende. Os pensamentos sempre estão longe. Pensa na mãe
que há anos já não tem. No irmão, Bryan, que a pouco perdeu. Nada pode
consolá-la, nem mesmo a presença constante do pai consegue tranquilizá-la.
“Maldito
espelho! Sou em quem deveria morrer no lugar de todos a quem amo.”
Sua
culpa, arrependimento e mágoas não a deixam viver e afastar os maus momentos…
Tudo é motivo para atormentá-la. Jane delira, tem visões. Vê a mãe em todos os
lugares. Em sua cabeça jorram más emoções e pensamentos ruins. A imagem que a
persegue é a de sua mãe sendo atropelada. Ensanguentada. Morta.
“É tudo culpa
minha, mãe! Desculpe-me.”
Como
se isso já não fosse o suficiente, a lembrança do pobre irmão baleado aparece
nos momentos mais inoportunos. Sempre quando ela consegue afastar um pouco as
más recordações, seus piores pesadelos a perseguem e corroem seu interior. Em
suas mãos vê suas digitais com manchas vermelhas: o sangue do irmão, que morreu
em sua presença e, acredita ela, por sua culpa. Sua família aos poucos se
esvai, e pensando em quem será a próxima vítima, torce para que ela seja
sacrificada, em prol da vida de seu pai.
“Eu não aguento
mais!”
Jane
grita, estirada na cama, enquanto lágrimas caem de seu rosto, contra sua
vontade. Ouve um estrondo no banheiro e vai averiguar o que aconteceu. Quando chega
ao banheiro, tem uma visão diferente. Tenebrosa. O espelho quebrado havia
voltado. Suas imagens não eram simples reflexos… Eram visões. Um forte grito
de horror sai involuntariamente de sua boca, enquanto ela, paralisada, vê no
espelho o seu pai morrendo, sem saber como, o que fazer e a quem recorrer. A
imagem volta a ser apenas um reflexo, e de repente, quando a cena macabra
retorna, o pai já se encontra morto, no andar de baixo.
Correu
em direção as escadas e rapidamente chegou ao encontro dele. Percebeu que em
cima de seu corpo estava o espelho. Tomada pelo medo, pela angústia e pela
raiva, Jane se joga sobre o espelho, tentando destruí-lo, porém, ele a cerca e
toma posse de seu corpo e alma. É seu fim.
Desde
então, ninguém nunca mais soube de Jane. A polícia vasculhou todo o imóvel após
a retirada do cadáver do pai, todavia, o esforço foi em vão, pois não
encontraram vestígios, nem mesmo pistas do paradeiro de Jane. Tudo que encontraram
foi um espelho, sobre sua cama, mas não o deram importância, pois não sabiam do
mistério que rondava por trás dele e que culminou no fim da família de Jane. Encontraram
o raro e amaldiçoado espelho, que em seu interior aprisiona o corpo e a alma de
Jane. A doce, meiga, e agora morta, Jane.