Por Jéferton Santos
— Eu sempre senti que estava destinado a fazer algo
importante, sabe? Aquele tipo de coisa que muda a vida de várias pessoas.
— Acho que entendo você.
— Quando eu lia um livro que me mudava, ou via um filme que
me fazia refletir, ou ainda uma reportagem contando a história de uma pessoa
que superou vários obstáculos e era um exemplo de vida. Eu me imaginava como
alguém assim — ele falou, já começando a admitir tudo que estava acontecendo. —
Uma vez, uma cigana viu na sua bola de cristal que eu mudaria a vida das
pessoas.
— Você acha que ela acertou?
— Não. Eu nunca cheguei a terminar meu livro, ele ainda deve
estar jogado em algum lugar do meu quarto. Também nunca fui um grande exemplo
de vida, não consegui me formar e não cheguei a ter um emprego decente. Mas se
eu tivesse mais tempo, acho que poderia terminar essas coisas…
— Já conversamos sobre isso. Você sabe que não tem mais
tempo.
— Entendo – baixou a cabeça, aquela fora sua ultima
tentativa; percebeu, enfim, que seu tempo acabara. – Mas por que estamos tendo
essa conversa?
— Sabe quando as pessoas falam sobre como a vida passa
“na frente dos olhos” no ultimo segundo? Esse é o seu ultimo segundo.
— Se soubesse disso antes, teria feito mais coisas, para ter
um último segundo melhor.
— Mas sua vida foi ótima, você que está vendo as coisas pelo
lado errado. A cigana estava certa.
— Ahm? Como assim? Acho que você não entendeu o que eu
disse.
— Você não precisa terminar um livro, ter um grande
trabalho, participar de uma reportagem, doar milhares de reais para
instituições ou ainda fazer grandes coisas para mudar a vida das pessoas. Você
pode fazer isso espalhando sorrisos e distribuindo palavras de ternura.
Ele nada falou, apenas ouviu e refletiu. Ela continuou:
— Você mudou a vida de um menino quando comprou um novo
sorvete, porque o dele caíra no chão. Mudou a vida de uma mulher, quando
devolveu o troco que você havia recebido errado. Mudou a vida de um homem,
quando deixou ele passar na sua frente na fila do banco, pois era muito importante
para ele. Você não muda a vida das pessoas fazendo grandes coisas, mas sim,
transmitindo pequenos exemplos.
Ele sorriu, e assim o trabalho dela havia terminado.
Ele caminhou para a luz e antes de alcançar se virou para
ver novamente aquela mulher de pele pálida, cabelos e olhos negros como o
infinito, ela lhe parecia familiar.
Ela retribuiu o sorriso. Ele entrou na luz.