Ano: 1999 / Páginas: 263.
Editora: Record.
Por Rodrigo Pires
Não lembro por qual motivo tive à ideia de ler esse livro. Estava na verdade em busca de alguma literatura clássica. E confesso que foi uma ótima escolha assim que vi esse livro em um sebo. 
Demorei quase duas semanas para concluí-lo e sim, não li com pressa. O livro é narrado na 3º pessoa com foco exclusivo na personagem principal. Em alguns momentos o narrador se expande deixando o protagonista de lado e indo para alguns personagens com importância na trajetória do assassino. A narração eu achei mediana para o entendimento, não é um livro difícil e de longe de fácil leitura. 

Conta tudo desde nascimento, da infância sofrida e a vida adulta de Jean-Baptiste Grenouille. O leitor o segue por todo o livro até os dias que ele se torna um psicopata. Acho que a intenção era de trazer alguma sensibilidade para o personagem. Mas fui daqueles que torcia contra o Grenouille todo tempo. Sua personalidade é muito egoísta, muito inteligente e paciente. Ele nasceu com o olfato apurado, conseguia sentir o cheiro de tudo e encontrar pessoas e objetos há quilômetros de distância. Porém ele mesmo não tinha um odor sendo descrito ao nascimento como filho do demônio.

“Incrível! O idiota enxerga mais com o nariz do que com os olhos e, provavelmente, a luz da razão dada por Deus teria de brilhar ainda por mais mil outros anos antes de terem sido espaventados os últimos restos da crendice primitiva.”
O livro se passa por várias cidades da França. Mas a que marcou foi a de Paris, dita no como uma cidade podre e fedida no século XVIII. Não sei se somente eu, mas com o decorrer da narrativa conseguia sentir os odores que foram descritos minuciosamente. 
Grenouille em determinado momento da narrativa se torna ajudante de um perfumista famoso da cidade de Paris, entretanto estava com queda das vendas, pois seu rival produzia um perfume melhor e a cada estação criava mais novidades. Interessante que nesse ponto a personagem principal começa a cobiçar a criação de iguarias. Aprende, melhora seus dons olfatórios de combinação e sente, uma incrível, vontade de criar um cheiro somente dele que fará com que qualquer pessoa o ame, venere. Sua ambição é mostrada como algo destrutivo e inabalável. Ele não gosta das pessoas e odeia os cheiros que os seres humanos exalam. 
Até que um belo dia encontra uma garota na flor da idade que tem um cheiro perfeito. O odor que Grenouille sonhou em ter e sua cobiça desesperadamente ansiava pelo o cheiro da menina. Neste momento começa a matar virgens para sugar toda sua essência, de uma maneira chocante, para serem peças do seu perfume perfeito. 
Os odores e a forma que os conseguia eram bem nojentas e podem deixar os mais sensíveis com alguma repulsa.
“Quantas vezes já tivemos o caso de uma mistura cheirar maravilhosamente refrescante à primeira prova, e a legume podre depois de pouco tempo e, finalmente, horror, a puro almíscar, por nós dosado alto demais.”
O desfecho foi surpreendente, sério não dava para prever o fim. Grenouille nos deixa tão vidrado em seus planos, anseios que o final é uma de tirar o fôlego. As últimas cinquenta páginas são lidas freneticamente. O livro é basicamente a autorrealização dos desejos dos humanos. Que na visão de um psicopata que se perde em seu pensamento e começa a desejar, querer possuir todos os cheiros de alguma forma física. A metáfora “do desejar muito e quando tiver não conseguir se satisfazer” é bem a mensagem da narrativa. 
Recomendo o livro e na avaliação do skoob dei 4 estrelas. A parte negativa foi as descrições minuciosas de tudo, às vezes até dava uma vontade de largar a leitura. Mas depois que consegue mergulhar e se acostumar com a forma que o autor escreve tudo se encaixa, consequentemente a narrativa acaba se tornando divertida.
“Uma vez na vida gostaria de ser também como outras pessoas e externar a sua interioridade: assim como elas externavam o seu amor e a sua idiota veneração, assim ele o seu ódio. Uma vez, uma única vez, queria ser considerado em sua verdadeira existência e receber de outra pessoa uma resposta ao seu único sentimento verdadeiro, o ódio.”