Por Levi Kaique Ferreira

Era uma terça-feira de outono,
não me recordo muito bem da data, mas sei diferenciar as estações. As folhas
estavam todas alaranjadas. No bosque, onde costumo dormir, o chão estava
coberto por folhas e as brisas geladas anunciavam o já não tão distante
inverno.
Naquele dia eu estava sentado
observando as crianças brincarem no campo. Esse foi, talvez, meu hobby favorito
nos últimos três meses. Havia três garotos com aproximadamente sete anos e um
jovem de aproximadamente dezenove anos com uma bola de futebol. As crianças
tentavam pegar a bola dele, mas ele as driblava com maestria. Ele parecia se
divertir. Do outro lado havia 3 garotas observando-os. Elas olhavam para o
jovem e timidamente conversavam entre risinhos. Estavam claramente afim do
garoto mais velho.  
Fiquei por alguns instantes ali e
depois me levantei. Dei uma volta pelo lago do bosque e cumprimentei algumas
pessoas que sempre me ajudavam com comida e roupas “novas”.  A senhorita Oniell me deu alguns trocados e
fui até a padaria comprar algo para comer.
– Você teria algum café suspenso?
– Perguntei esperançoso.
Cafés suspensos, para quem não
souber, são cafés já pagos por outras pessoas para que andarilhos, como eu na
época, pudessem tomar. Aqui as pessoas são muito generosas, costumam comprar um
café para elas e deixar dois ou três suspensos para mendigos.  
– Sim, sim. Aguarde um minutinho
que já preparo o do senhor. – Disse a simpática garçonete.
Agradeci e sentei-me na mesa mais
afastada o possível, não desejava incomodar ninguém. Tinha consciencia de que
meu cheiro não era agradável naquela situação.  
Aguardei por pouco tempo. A
garçonete me serviu o café e mais alguns bolinhos cortesia, não precisei usar o
dinheiro da Senhorita Oniell, então o guardei para outro dia de necessidade.
Estava tomando o café e
assistindo aos noticiários quando um homem, que eu tenho certeza de não ter
visto na mesa ao lado quando sentei, comentou as noticias.
– O mundo anda podre… Não acha?
– Bom, não tenho muito do que
reclamar…
– Como não? Você é um mendigo e
olhe para as noticias, só há desastres e desgraças…
– Aprendi a não exigir muito do
mundo e das pessoas que nele vivem, e é exatamente por ser mendigo que conheço
a bondade e generosidade dos homens, coisas ruins acontecem em qualquer lugar,
nem mesmo Deus livrou-se da traição do Diabo…Ele era um anjo e..
– Ah sim, conheço bem essa
história – Interrompeu-me, incomodado – Você acha que faria diferente do Diabo?
– Bom, não… – Hesitei ao
responder.
– Vocês homens são engraçados – O
homem agora parecia mais confortável.
Ele era alto e bonito, tinha os
cabelos longos bem pretos e olhos profundos também de mesmo tom. Era imponente
e vestia-se bem, muito bem. Trajava um terno bem alinhado da cor de seus
cabelos. Sua gravata era fina e era de um vermelho sangue bem vivo. Ele tinha
alguns anéis estranhos nos dedos da mão esquerda, não consegui ver direito os
símbolos, ele escondeu a mão quando olhei, mas era algo bem diferente, rústico,
diria até medieval e diabólico.
– Por que acha isso? – Perguntei
intrigado.
– Bom, vejamos… – Seu tom de
voz era sereno e arremetia tranqüilidade, mas eu não ousaria desafia-lo.
Parecia ser o tipo de homem que odeia ser contrariado. – O mundo de hoje está
podre, tão podre quanto nunca esteve antes. Vocês estão se destruindo aos
poucos, e ELE, ah…ELE não intervém, não faz nada para mudar isso e ainda diz
que os ama como nunca amou ninguém…O mais engraçado – Sorriu – É o fato de
vocês o bajularem para todos sempre mesmo quando tudo da errado.
– Se quando diz “ELE”, refere-se
a Deus, eu concordo com a posição Dele…Ele nos deu o livre arbítrio, somos
seus filhos amados e não formigas em uma caixa de sapatos…Mesmo que nossas
escolhas nos leve a extinção ele mantém sua palavra e nos deixa perecer ou ser
exaltado dentro das conseqüências de nossas escolhas.
O homem gargalhou.
– Responda minha pergunta
anterior…
– Sim…  
– Se você fosse o Diabo, o que
teria feito?
Limite-me a sorrir. Ele então
continuou.
– Se tivesse a oportunidade de
mudar o jogo e fazer tudo da sua forma, da sua maneira, você faria?  Ou se deixaria corroer para fazer a vontade
de seu criador?
A pergunta era difícil e o homem
parecia desejar muito a resposta. Fui sincero, o mais sincero que pude.
– Não faria diferente do Diabo
naquele momento, mas faria diferente hoje, sim hoje eu mudaria, não faria o que
ele tem feito. Estaria em paz comigo por ter tentado, por ter seguido meus
princípios, isso bastaria para a minha consciência, não tentaria tomar o poder,
não tentaria dominar ninguém, nem nada. Seria eu mesmo, feliz com a minha
decisão inicial. O “buraco” não é tão ruim assim, já estive na beira dele
várias vezes e ainda vivo, sorrio e dependo apenas da bondade das pessoas ao
meu redor…
– Você é um homem sem ganância…-
Assumiu ele – Mas não sabe de tudo, não conhece realmente o “buraco”, não
conhece toda a história, vive de migalhas da verdade, assim é fácil tomar uma
decisão e não se arrepender, sem o peso de conhecer as conseqüências, as reais
conseqüências. Nem toda história conta todos os acontecimentos, lhe é contato o
que lhes convém, nada a mais…
Ficamos quietos por um instante,
e então ele voltou a falar:
– As pessoas são tolas, erram e
não possuem índole o suficiente para assumir, coisas são atribuídas a mim,
coisas na qual eu não tive participação alguma… Acha mesmo que perderia meu
tempo possuindo pessoas? Fazendo-as matar, roubar? Isso é coisa de homens
fúteis e deuses com tédio…
Não precisei pensar muito para
saber quem era aquele homem, mesmo assim duvidei de minha sanidade.
– Não se preocupe – Disse o diabo
– você não está louco.
– Ah sim, isso me alivia um
pouco. – Sim, foi irônia.
Novamente o silêncio, aquilo era
perturbador. Tomei mais um pouco do meu café e o observei com cautela.
– Veio me buscar? – Perguntei sem
saber se realmente queria ouvir a resposta.
Ele gargalhou
novamente, parecia se divertir.
– Não, é claro que não, não sou a
Morte, sou mais bonito – Brincou.
Eu não duvidaria, com certeza não
duvidaria.
– Então o que faz aqui?
– Bom, costumo freqüentar esse
café…A garçonete é bonita, diferentemente da Morte e minha mulher já está
velha, deve imaginar, bilhões de anos… – Ele percebeu que as piadas não me
deixavam mais tranquilo então parou.
Ele voltou a me fitar sério e
aquilo me fez hesitar , decidiu ir logo direto ao ponto. – Bom, na verdade,
minha intenção era lhe fazer uma pergunta, mesmo já sabendo qual será a
resposta… – Anunciou – Vocês homens costumam impressionar.  
– E qual seria essa pergunta? –
Indaguei, me ajeitando na cadeira.
– Naquela noite, por que pediu a
minha ajuda? Por que não a ajuda d’Ele como todos fazem? – Disparou – Por que rogou
por MINHA misericórdia e não a Misericórdia de Deus? Eu sou o Diabo e considerando
sua vida; suas crenças, esse pedido me intrigou.
Eu não sabia o que responder. O
que aconteceu comigo naquela semana foi terrível, arrepiei-me ao lembrar e lagrimas
queimaram minha bochecha, mas eu teria que lhe contar, ao menos dar um motivo
convincente para aquilo.